No último dia 31 de agosto de 2026, completaram-se 54 anos da minha vinda para esta amada Cidade do Salvador, que me recebeu e moldou minha vida, meu caráter. É um tempo quase três vezes superior ao que vivi em Guanambi — minha cidade natal, de onde saí, na tarde do dia 30 de agosto de 1972, aos 19 anos de idade. Duas cidades, dois colos diferentes; dois lares, que me abraçam com afetos desiguais; dois leitos, onde durmo sonos distintos.
Ainda me lembro daquelas duas ocasiões: a partida, tendo à frente a expectativa do desconhecido, e a chegada, com o passado espiando na curva do caminho. Quanta angústia, ao ver a caatinga sumir na poeira da estrada de barro; como foram aflitas aquelas 15 horas em um bravio ônibus da Novo Horizonte, novata em suas linhas de ligação do sertão com o litoral.
Cheguei em Salvador na madrugada de uma quinta-feira, mas não vi a entrada da cidade; dormira logo que o ônibus passara por Feira de Santana, para acordar na velha rodoviária das Sete Portas, que continuaria a servir de ponto de embarque e desembarque de passageiros na capital por mais dois anos, até ser substituída pelo terminal do Iguatemi — recentemente desativado e a operação transferida para a nova estação, em Águas Claras.
Desci do ônibus em meio a carregadores de bagagem; vendedores de mingau, café, pastel e refresco; cachorros vagueando. Peguei minha mala, juntei a coragem às instruções recebidas de amigos — que vieram antes de mim — e dirigi-me ao ponto de táxi. Eu tinha o endereço na ponta da língua, recitado para mim mesmo dezenas de vezes: conjunto residencial Santa Madalena, na Avenida Vasco da Gama, no Rio Vermelho.
Chovia uma chuvinha fina e eu sentia frio. Era meu organismo reagindo ao clima. Afinal, umidade do ar de 70% era coisa que conhecia dos livros primários de Geografia da educadora Olga Pereira Mettig, baiana de Cachoeira. Estava acostumado ao ar seco de Guanambi — onde o vapor d’água desce a menos de 10% do ar e sangramentos pelo nariz é comum. Na verdade, a baixa umidade resseca a pele nasal interna, a pessoa coça e daí pequenos vasos sanguíneos se rompem. Minha sina não era menos penosa: vivia com as amídalas inflamadas — o ar úmido de Salvador livrou-me desse sofrimento.
A visão que eu tinha de cidade grande era a de Itabuna, desde que lá estivera, em 1970, como presidente do Centro Cultural Assis Chateaubriand, do Colégio Estadual Governador Luís Viana Filho. Eu fora à Academia Cultural dos Estudantes do Sul da Bahia, a histórica Acesb, para emissão das pioneiras carteiras de identidade estudantil de Guanambi.
Nos primeiros dias em Salvador, não só a descompensação nos mecanismos de regulação do equilíbrio fisiológico me afetou, também o impacto cultural. Certa vez, um amigo meu resumiu tudo como “choque térmico” cultural e emocional, coisa que só vim a perceber anos depois, quando muitos dos fatos ocorridos haviam se esvaído da minha mente. Lembro-me de um outdoor, nos arredores do Dique do Tororó, a anunciar o filme “Um farol no fim do mundo”, de 1971, com Kirk Douglas, Yul Brynner e Samantha Eggar.
O cinema sempre foi a minha lanterna mágica. Assim que cheguei a Salvador, o Cine Tupi, à entrada da Baixa dos Sapateiros, exibia o melodrama musical brasileiro “Coração de luto”, de 1966, com o cantor popular Teixeirinha. “Resistir quem há-de?” — perguntaria o poeta Luís Guimarães Júnior (1845-1898) no meu lugar. Entrei em um taxi e fui ao cinema, sob gracejos da minha tia Arlete Novaes Oton. Ela e seu marido, o meu tio Antônio Oton Neto (1939-2003), trouxeram-me para Salvador.
No mesmo Tupi, assisti, petrificado, diante de uma imensa tela, a “Inferno no Pacífico”, de 1968, com Lee Marvin e Toshiro Mifune. A luta pela sobrevivência de um oficial da Marinha japonesa e um fuzileiro norte-americano, isolados em uma ilha do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), agravada com a limitação imposta na comunicação pelo idioma e a cultura de cada um, muito me comoveu, de maneira que me vi naquela situação, distante dos que conheciam meus hábitos, meus costumes, minhas necessidades. Por mais que falasse a mesma língua dos que me rodeavam, pouco me comunicava com eles.
Sentia-me isolado na nova cidade. Eu era uma válvula solta em meio àquele emaranhado de peças humanas, pois se a linguagem é o método mais completo de comunicação entre os homens, e se se mostra como fato social, para mim perdera tal função. Seriam necessárias a emissão e a pronta recepção da mensagem, e certamente isso não estava ocorrendo, daí meu desespero, ao perceber a enorme ilha no Atlântico com que Salvador se apresentava para mim.
Nas ruas, especialmente da área do Comércio, na cidade Baixa, onde meu tio trabalhava — chefiava o setor de cadastro do Banco de Crédito Real de Minas Gerais —, eu buscava contatos com pessoas, como forma de fugir do isolamento social, da ausência da comunicação, até mesmo ouvir a minha própria voz, em meio ao arquejar da cidade. Às vezes perguntava a um ou outro transeunte sobre as horas, pedia informação a respeito do trajeto de um ônibus ou sobre determinada rua para em seguida pronunciar, pausadamente: “Obrigado!”
Se a agonia daqueles dois soldados esteve reduzida, tecnicamente, a pouco mais de uma hora e meia, meu dilema durou bem mais. Coisa de dois ou três meses para aparecerem os letreiros finais.
Passados 54 anos, obrigado Salvador por me abraçar; Obrigado Guanambi por me entender; Obrigado aos que andaram comigo ao longo desse — com o passar dos anos, delicioso — tempo. Rendo graças ao meu Deus!
Este texto foi alterado e ampliado com informações prestadas por familiares da professora Enedina Costa de Macêdo, que considerei de grande valia e que, juntadas às anteriores, muito enriquecem a publicação.
Enedina Costa de Macêdo
Com esta palavra — Destemida! — Kátia das Graças Macêdo Bonfim definiu a sua mãe, professora Enedina Costa de Macêdo, que completaria 109 anos no dia 24 de outubro próximo; faleceu a 27 de agosto de 2017, dois meses antes de chegar aos 100 anos. Corajosa, valente, de muito denodo; é como o dicionário da língua portuguesa define a pessoa destemida, e desta forma era a professora Enedina — sertaneja nascida a 24 de outubro de 1917, na fazenda Laranjo, atualmente Ceraíma, numa época em que a mulher vivia em condição de relativa incapacidade civil.
Seus pais foram Petronilha Petrina Pereira e Alcebíades Pereira da Costa, que após a filha concluir os estudos iniciais, em Guanambi, enviaram-na para Caetité, a cerca de 40 quilômetros, onde foi diplomada em Magistério pela Escola Normal, em 11 de dezembro de 1939. Duas décadas antes, no exato ano em que nascera, o então presidente Wenceslau Brás sancionara o Código Civil Brasileiro — que vigoraria até 2003. Por este estatuto, a mulher, em especial a casada, não possuía autonomia jurídica para gerir sua própria vida: dependia da autorização do marido para diversos atos da vida civil. Estava equiparada ao menor de idade (entre 16 e 21 anos) e ao indígena tutelado. Precisava da permissão do marido para, dentre outras situações, trabalhar fora de casa, viajar ou receber herança.
A mulher brasileira permaneceu nesta circunstância até 1962, quando entrou em vigor a Lei nº 4.121, chamada de Estatuto da Mulher Casada, que lhe assegurou a plena capacidade civil e o direito de ter bens próprios. Por essa época, Enedina já se encontrava casada — casara-se, em janeiro de 1950, com Antônio Neves de Macêdo. “Em toda a sua vida, (minha) mãe jamais desistiu de algo que desejasse realizar; ela sempre foi assim, desde que iniciou os estudos, em Guanambi, e mais ainda em Caetité, onde encontrou ambiente propício para defender o direito da mulher.” — relata Kátia Bonfim. .
Antes mesmo de quebrados os grilhões pelo Estatuto da Mulher Casada, a já diplomada professora Enedina Costa de Macêdo dispensava qualquer autorização que fosse, para trabalhar pela Educação. Em 1941, assumiu o cargo de professora municipal na fazenda Volta e, em seguida, no distrito de Ceraíma; em 1942, após aprovada em concurso do Instituto Normal da Bahia, em Salvador, assumiu a regência da 3ª Classe do Grupo Escolar Getúlio Vargas, no dia 23 de abril; por duas vezes — abril de 1949 a maio de 1951 e março de 1952 a maio de 1955 — foi diretora deste grupo escolar.
Em 1954, depois de concluir o curso de datilografia, pela Escola Costa Santos, em Caetité, fundou a primeira escola de datilografia de Guanambi, à qual deu o nome de Santa Rita de Cássia, quando, também, integrou a equipe de criação do primeiro ginásio escolar de Guanambi, ampliado para Ginásio e Escola Normal de Guanambi, onde lecionou História Geral e História do Brasil, de 1954 a 1957, ano em que se afastou, para fundar a Escola Primária São Lucas. Em 1959 esta escola foi transformada em ginásio e escola normal, do qual foi proprietária, fundadora e diretora.
Aos 45 anos de idade, nas eleições municipais de 1962, Enedina Costa de Macêdo disputou uma vaga para a Câmara Municipal de Vereadores de Guanambi, pela União Democrática Nacional (UDN), mas não se elegeu, ficando com a terceira suplência. À época, o vereador Lino Teixeira fora eleito pelo mesmo partido, com 480 votos.
Eu tinha nove anos de idade quando a professora Enedina concorreu à Câmara Municipal, mas esta informação somente chegaria ao meu conhecimento muitos anos depois, da mesma forma que outros fatos da vida desta destemida mulher, dada à desatenção com que costumavam ser tratados os feitos locais.
CARINHOSA E AMOROSA
Seus familiares destacam que Dona Enedina sempre foi carinhosa e amorosa com os netos, e que a convivência diária fez com que os vínculos se tornassem ainda mais fortes e profundos, a ponto de eles terem várias recordações dela, principalmente nas fases da infância e da sala de aula, desde a ajuda com tarefas escolares ao orgulho por poderem levar para a escola, nas feiras de conhecimento, suas coleções de águas de rios do Brasil e do mundo, como Tejo, Sena, Tâmisa, Reno; dos mares da Galileia, Morto, Mediterrâneo, Vermelho, e água do Poço de Jacó, além de outros registros históricos de viagens que fez.
Em prestimosa resposta a uma série de perguntas sobre a sua mãe, assim Kátia Bonfim relata:
— Todos os netos têm muito orgulho da história dela, e presenciaram diversas situações em que a “vó Enedina ou vó Nede” era abordada na rua, em eventos, por pessoas que lhe demonstravam o maior o respeito e deferência, sempre exaltando e mencionando seus feitos e papel na educação e na formação de grandes nomes da sociedade em nossa região. Os netos puderam, não somente presenciar, também participar de homenagens que ela recebeu ainda em vida, compartilhando sua admiração. Os encontros com os bisnetos eram sempre repletos de muito amor, e eram a sua maior alegria, pois dado ao fato de morarem em outras cidades, esses momentos juntos eram preciosos e eles guardam as melhores lembranças da Bisa.
Não foi fácil à professora cuidar da família e, ao mesmo tempo, dedicar-se a uma profissão pouco valorizada, numa região do sertão baiano — e por conta disso veio-me a pergunta, feita à sua filha, quanto às dificuldades, se é que ela reclamava, encontradas por Dona Enedina para seguir com sua missão de educadora, levando em conta que, ainda nos tempos atuais, a mulher não recebe o tratamento que lhe é de direito.
A respeito, responde Kátia Bonfim:
— Mãe nunca reclamou sobre nenhuma questão de trabalho, nunca a ouvimos queixar-se ou mesmo mencionar qualquer situação de dificuldade com relação ao trabalho; era muito dedicada e amava o que fazia. Ela lidava com todas as questões relacionadas ao colégio e à educação com muito esmero, dedicação e comprometimento. À época, a profissão de professora ocupava uma outra posição na sociedade, havia mais reconhecimento e maior valorização por parte da sociedade, haja vista ser considerada uma educadora de fato, participante efetiva da formação e educação dos alunos, não apenas atuante pedagógica. E (minha) mãe, por ser, além de professora, diretora de escola, sempre foi muito reconhecida e valorizada por sua competência e comprometimento; era uma voz respeitada na cidade, sempre consultada em diversos assuntos relativos à educação no município. E essa valorização e reconhecimento permanecem até os dias atuais, tanto que sua memória é sempre tratada com deferência, e todos, quando se referem a ela, enfatizam sua trajetória e atuação na educação de Guanambi com respeito, consideração e apreço.
ELEGÂNCIA E CONHECIMENTO
Conheci a professor Enedina no primeiro semestre de 1964, quando prestava exame para minha admissão ao curso ginasial, no Ginásio São Lucas, e “conhecer” é maneira de dizer, pois eu apenas a vi passar por um grupo de estudantes, entre os quais eu me encontrava, ao lado do meu primo Generaldo Teixeira (Ladim). Estes estudantes, já veteranos, debatiam a então chamada de “Revolução de Março”, que acabara de ser perpetrada por militares das Forças Armadas brasileiras na condição de um — agora já sabido — golpe militar.
Elegância no trajar e no andar
Confesso que não me lembro da conversa e sequer sabia exatamente o que havia ocorrido naqueles meses de março e abril de 1964, mas ficou na minha memória a curta frase dita com elegância e humor pela então diretora do São Lucas: “Estudem!…”
Anos depois, e não mais residindo em Guanambi, matutei sobre aquela frase e então pude entender a mensagem, posteriormente refletida nas ações da destemida professora. A História deve ser estudada, o que quer dizer, apreendida, não apenas absorvida dos textos impressos nos livros, geralmente escritos pelos vencedores. Segui por este caminho.
Sempre elegante no trajar e no andar, a circular pelos corredores e salas do Ginásio e da Escola Normal São Lucas, Dona Enedina — assim era chamada pelos alunos — desfrutava da consideração de todos. Não era temor, era respeito, admiração diante da deferência que ela dispensava a alunos, professores e funcionários diante de alguma falha, embora fosse severa, especialmente se a quebra do regimento interno.
“Lá vem Dona Enedina!” — ouvia-se, de um ou de outro, a modo de alerta, no caso de algo irregular estar sendo engendrado. Rapazes abotoavam a camisa, ajeitavam o cadarço do sapato ou cabelo; moças cuidavam de acomodarem-se adequadamente nos bancos de cimento na área de lazer, e cada qual em sua ala, pois o pátio estava dividido em duas partes: uma feminina e outra masculina, separadas por um muro. Um funcionário cuidava da fiscalização e, sob situação alguma, havia mistura de homens e mulheres no intervalo das aulas. “Já foi embora!” — aí todos relaxavam-se.
E seguia Dona Enedina. Suas vestes, geralmente uma saia de corte reto, de comprimento na altura dos joelhos, encimada por uma blusa com gola, de mangas curtas, e um casaco do mesmo tecido, demostravam o guarda-roupa de uma mulher moderna. A cor sempre sóbria, fosse azul, rosa ou cinza. Não à toa um modelo popularizado por ícones como a cantora Nara Leão, numa combinação de elementos que criavam uma silhueta feminina e elegante, sem exageros. Assim trajada, circulava pelos corredores do colégio e, com frequência, participava de atividades de sala de aula, ao lado dos alunos, e sempre registradas em fotos. A professora Enedina era amada e respeitada, também temida, talvez pelo alto cargo que exercia. Confesso que, eu mesmo, tremia de medo quando ela olhava para mim: achava que havia feito algo de errado. Mas não, ela me olhava e sorria, como se fazem os avós, os tios mais velhos. Ela sempre agiu assim: olhava para os alunos e sorria, com aquele sorriso fino, amigável e de aprovação.
Presente nas atividades de sala de aula; no cículo, o aluno Ari Donato
Quando em maio passado conversei com Kátia Bonfim, a quem eu conhecia do ginásio São Lucas, embora guardássemos uma certa distância, devido à diferença de idade e posição social, ela confirmou aquela impressão minha a respeito de Dona Enedina:
— Mãe separava muito bem as coisas, os seus papeis como professora e diretora, na escola; e em casa, em que era uma mãe normal, fazendo as suas atividades cotidianas, cuidando e educando com muita dedicação. Na verdade, ela nem chegava a mencionar assuntos do colégio em casa, e tínhamos a rotina normal de uma família tradicional, cada uma com as suas atribuições e deveres. Mas, no colégio, claro, eu e minha irmã éramos muito observadas, justamente por sermos as filhas da diretora da escola e, por isso, era esperado de nós que tivéssemos sempre um comportamento exemplar. O nosso comportamento no colégio com os colegas e amigos era típico e comum aos jovens da nossa idade e da época, entretanto, sabíamos que qualquer “deslize” seria levado ao conhecimento de mãe rapidamente, pois éramos as “filhas da diretora”, e não podíamos fazer nada de errado. Qualquer coisa diferente que a gente fizesse, mãe seria a primeira a saber, pois não havia como esconder nada dela no ambiente da escola.
TESTEMUNHA DAS MUDANÇAS
A partir da implantação do voto feminino, em 1932, no Governo Getúlio Vargas, a trajetória da mulher brasileira mostra-se marcada pela transição de um estado de relativa incapacidade civil para a igualdade jurídica e social. Ao longo desta caminhada histórica despontava, na região de Guanambi, a professora Enedina Costa de Macêdo, que acompanhou, de maneira participativa, toda esta histórica revolução. Veja alguns momentos:
1962 — Estatuto da Mulher Casada — Até então a mulher casada era considerada “relativamente incapaz” pelo Código Civil de 1916: precisava de autorização do marido para trabalhar fora, viajar ou receber herança. A Lei nº 4.121/62 devolveu à mulher a plena capacidade civil e o direito de ter bens próprios. 1977 — Lei do Divórcio — A Lei nº 6.515/77 foi um divisor na autonomia feminina e na estrutura familiar brasileira. Antes dela, o casamento era indissolúvel, existia apenas o desquite, que não permitia novo matrimônio. 1988 — Constituição Federal, promulgada em 5 de outubro — Conhecida como Constituição Cidadã, transformou-se no marco mais significativo para a igualdade de gênero ao estabelecer igualdade jurídica: homens e mulheres iguais em direitos e obrigações (Art. 5º, I); direitos trabalhistas: licença-maternidade de 120 dias e proteção do mercado de trabalho contra discriminação; chefia familiar: o poder familiar passou a ser exercido igualmente por ambos os cônjuges. 2006 — Lei Maria da Penha — Criados mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar, estabelecendo medidas protetivas e punições mais rigorosas. 2013 — PEC das Domésticas — A Emenda Constitucional nº 72/2013 garantiu ao trabalhador doméstico, uma categoria composta majoritariamente por mulheres, direitos já assegurados aos demais profissionais pela Constituição de 1988. 2015 — Lei do Feminicídio — O assassinato de mulheres motivado por questões de gênero passou a ser crime hediondo.
CRONOLOGIA DE UMA JORNADA
Em agosto de 2017, por ocasião do falecimento da professora Enedina Costa de Macêdo, o jornalista João Roberto Teixeira fez uma cronologia da sua jornada de educadora, que publicou no site de notícias Agência Sertão. Transcrevemos, com a devida autorização, o artigo do autor (LEIA aqui):
1917 — Nasce na fazenda Laranjo, no município de Guanambi, filha de Petronilha Petrina Pereira e Alcebíades Pereira da Costa; 1939 — Diploma-se em magistério pela Escola Normal, em Caetité; 1940 — Agente recenseadora no município de Guanambi; 1941 — Nomeada professora municipal, leciona na fazenda Volta, depois no distrito de Ceraíma; 1942 — Aprovada no concurso do Instituto Normal da Bahia, é nomeada e designada, a 31 de março, como regente da 3ª classe do Grupo Escolar Getúlio Vargas, iniciando sua função em 23 de abril; 1947 — Estuda na Escola de Enfermagem Carlos Chagas, em Belo Horizonte (MG), por oito meses; 1949 — Assume a direção do Grupo Escolar Getúlio Vargas, de abril de 1949 a maio de 1951 e de março de 1952 a maio de 1955; 1950 — Casa-se em 27 de janeiro, com Antônio Neves de Macêdo, nascendo dessa união as filhas (gêmeas) Kátia das Graças e Aparecida Kátia; 1952 — Diploma-se em datilografia pela Escola Costa Santos, em Caetité; 1954 — Funda a primeira escola de datilografia em Guanambi; 1954 — Membro integrante da equipe do primeiro ginásio de Guanambi, onde lecionou História Geral e História do Brasil até 1957; 1957 — Funda a escola primária São Lucas; 1959 — Transforma a escola em Ginásio e Escola Normal São Lucas; 1962 — Candidata-se a uma vaga na Câmara de Vereadores de Guanambi, ficando como terceira suplente; 1966 — Participa da Segunda Missão Pedagógica promovida pela Inspetoria de Ensino Secundário em Caetité, na condição de diretora; 1969 — Representa o Colégio São Lucas na missão pedagógica promovida pela inspetoria seccional de ensino secundário, em Bom Jesus da Lapa; 1970 — Aposenta-se com vinte e oito anos de serviço em sala de aula, em 28 de julho; 1971 — Participa do Primeiro Encontro Nacional de Professores Licenciados do Brasil – secção da Bahia; 1975 — Condecorada em Roma pela participação ativa da peregrinação à Europa e Terra Santa, promovida pelo grupo Família Salesiana do Brasil; 1976 — Condecorada pelo BNH Clube de Guanambi – Honra ao mérito, em reconhecimento aos relevantes serviços prestados à comunidade guanambiense no setor de educação; 1992 — Menção honrosa com medalha Laert Ribeiro da Silva, pelos serviços prestados no setor educacional da comunidade; 1994 — Homenageada pela Prefeitura Municipal de Guanambi, fazendo constar seu nome em um dos colégios municipais desta cidade – Colégio Municipal Professora Enedina Costa de Macêdo. Bairro Araújo. L 001; Diploma de Sócio Correspondente, concedido pela Academia Guanambiense de Letras, pelos trabalhos prestados à cultura brasileira; 2004 — Escreve os livros Do Laranjo à Volta, que narra a história e genealogia da Família Pereira da Costa, aos 85 anos; As 4 Bandeiras, aos 87 anos, relatando suas viagens pelo Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina; 2014 — Escreve o terceiro livro, aos 88 anos, O mundo lá fora, descrevendo as viagens pela Europa e Terra Santa, a realização de um sonho de infância. 2017 — Falece a 27 de agosto, dois meses antes de completar 100 anos, em São Paulo, onde passava parte do ano, já que se dividia entre a capital paulistana e Guanambi, junto às duas filhas, que residiam, respectivamente, nessas cidades.
Luthier Pedro Santos em sua oficina, na cidade de Guanambi, estado da Bahia
Tocar e construir viola são duas das coisas de que o violeiro e luthier guanambiense Pedro Santos, 59 anos, mais gosta. Porém uma atrapalha a outra; de modo que, por um bom tempo, ele foi obrigado a se afastar da primeira delas e seguir apenas com a luteria, a ponto de já haver fabricado cerca de 500 instrumentos, entre violas, violões, bandolins, banjos e cavaquinhos. “Para pagar as contas” — responde, sobre este afastamento.
Dias atrás, em conversa ao telefone, Pedro Santos me disse que voltará a participar de encontros de violeiros, já a partir deste mês de maio (2026), em Guanambi, no sudoeste da Bahia, a 120 quilômetros de Monte Azul (MG), onde nasceu o violeiro Tião Carreiro (nome artístico de José Dias Nunes). Foi então que me ocorreu refazer aquela pergunta sobre o porquê de ele haver se afastado dos toques e das cantorias daqueles tempos da dupla Laçador e Cedralense (João Pereira dos Santos e Olívio José Santana).
— Quando passei a fabricar instrumentos, foi algo que deu certo, que decolou rapidamente. Então, entre tocar e fabricar, tive que me dedicar à fabricação, porque é de onde saía o dinheiro para pagar minhas contas, pois eu havia mudado de profissão, e só tocar viola, principalmente aqui na região, não tinha como sobreviver disso… Houve outros motivos, mas o principal mesmo foi a luteria, que tomava tempo e exigia dedicação.
Há 50 anos que Pedro Silva convive com a viola caipira; sempre que nos encontramos falamos disso. “Eu comecei a tocar em 1978, mas somente uns dez ou onze anos depois fabriquei a primeira viola” — recorda o agora renomado luthier, fazendo questão de ressaltar que não abandonou a viola, e que viver da arte de tocar e de construir era o seu desejo, mas isto nunca deu certo. “Não cheguei a parar totalmente, tanto que durante o período em que estive afastado gravei alguma coisa em estúdio, gravei CD e tudo mais…” — conta, com ar sério.
A guinada em direção à construção de instrumentos de corda começou no final de 1989, mais exatamente no mês de dezembro, quando Pedro Santos ponteava uma viola. Nesta ocasião, aos 23 anos de idade, ele era um carpinteiro na fazenda Curral de Varas, no distrito de Morrinhos, no município de Guanambi, e notando que a sua viola já estava castigada pelo tempo e pelo uso, disse para si: “Viola é feita de madeira, sou carpinteiro, então vou fazer a minha.”
Antes de terminar 1990 ele já tinha a primeira viola pronta, que mantem guardada, nos moldes de um troféu. “É rústica, muito rústica mesmo, mas tenho comigo até hoje” — conta, e destaca que entre 1990 e 1997 construiu seis violas, 12 violões e três cavaquinhos, quando então parou a luteria, por não se apresentar como atividade rentosa, o que o desanimou. “Não dava dinheiro e eu tinha de cuidar da família, então voltei para a marcenaria, trabalhei como pedreiro, fiz outras coisas e assim fiquei uns sete anos, até que voltei à luteria, em 2001, animado pelos amigos” — recorda. A partir desta data ele passou a numerar seus instrumentos e deu a todos sua marca “PS” de artesão.
O trabalho artesanal de Pedro Santos, de perfeita transição, une a tradição de quem nasceu no “chão” da música de raiz com o rigor técnico da luteria de alto nível. Para retomar a arte de fazer violas, Pedro dos Santos voltou técnico, estilista e criterioso; adquiriu pinho sueco para usar nos tampos, em lugar do cedro rosa, e melhorou a qualidade das cravelhas, dos metais usados. Com a madeira importada, o preço do instrumento sofreu om aumento substancial.
— De quando eu retornei, em 2001 ou 2002, para cá, acho que já somam uns 500 instrumentos. Foi quando eu passei a enumerar, pois eu não levei em conta aqueles instrumentos da primeira etapa. Foram feitos sem informação, meio que sem conhecimento técnico, tanto é que eu desisti, e na época disse a mim: estou fazendo uma coisa que nem mesmo eu sei o que estou fazendo!
Tão logo retomou a luteria, no que chama de “segunda etapa”, Pedro Santos recebeu a primeira encomenda — deste jornalista e aprendiz de violeiro que vos escreve. O instrumento, uma VMC (Viola Marfim Caipira), de número 2, ficou pronto em agosto de 2002. Com o passar do tempo, diversificou a produção; passou para violão, banjo, bandolim e cavaquinho, enquanto a produção de viola sofria redução, a ponto de ficar até mais de um ano sem construir uma.
TOCAR E CONSTRUIR VIOLA
Certo feita, quando nos encontramos em Guanambi, eu perguntei: mestre Pedro, você deixou de construir viola? A resposta veio no tom de confissão, um tanto grave, entristecida, em meio a queixas das dores lombares que o acometeram nos últimos anos.
— Eu não deixei exatamente. É que quase não recebo encomendas, quase ninguém me pede. Quis o destino que eu fosse bem conhecido na construção do bandolim, então sou muito procurado para fazer bandolins, principalmente de 10 cordas, que envio a toda parte do Brasil e, também, o exterior. Mas viola, realmente, quase não tenho pedidos; de vez em quando acontece de eu fazer uma ou outra.
Pedro Santos acredita que uma das razões para a queda na encomenda da viola caipira seja mesmo o preço do instrumento artesanal, considerado alto, distante “da realidade” de muitos violeiros, mas diz que cobra um valor afinado com o dos demais luthiers. “Realmente, o preço que cobro por um instrumento está acima da realidade daqui da região, mas está dentro do preço da realidade da luteria no Brasil. A maioria dos que querem me encomendar um bandolim paga o preço que eu cobro, mas a maioria dos violeiros que querem me encomendar uma viola, não paga o preço que eu cobro. Por este motivo, eu acabo ficando com os bandolins, porque são os que mais aparecem” — diz, com ar entristecido.
Violão de 7 cordas
DIMINUIR O RITMO
Um outro fator, que não a falta de encomendas, tem feito com que ele reduza o ritmo de trabalho: “Minha a saúde!” — ele disse a mim, em entrevista, queixando-se da sua condição física, das dores que passou a sentir, e que têm dificultado seu trabalho. No começo, Pedro Santos fabricava uma viola em até duas semanas. “Pode ser que passasse um pouco, na busca da melhor acústica, da melhor madeira e da finalização, mas a média era 15 dias para entregar uma viola, um violão”.
— Minha condição física já não é mais a mesma dos tempos passados, por isso eu quero diminuir o ritmo. Eu enfrento dores na coluna, tenho tendinite, bursite e tudo mais. Eu faço tratamento para ir aguentando e, ultimamente, tenho atrasado até encomendas. Estou lutando para reorganizar esta questão de preço e prazo. Eu tenho feito, em média, 18 instrumentos por ano, porém quero diminuir este ritmo, que está muito puxado para mim, que trabalho sozinho. Eu mando encomendas para o Brasil inteiro, até para o exterior; daqui da região são poucas, muito dificilmente acontece uma ou outra.
Bandolim de 10 cordas
Pedro Santos começou fazendo violas para a região de Guanambi, depois vieram pedidos para construir outros instrumentos, procedentes de Salvador, de Anderson Cunha; Jair Soares, guitarrista de Caetité; Edson Sete Cordas; Ailton Reiner; Armandinho e Aroldo Macedo. Em seguida para o Rio de Janeiro, de Ronaldo do Bandolim; e Brasília, de Reco do Bandolim, presidente do Clube do Choro; Dudu Maia; Jorge Cardoso; Hamilton de Holanda. “E assim, tenho mandado para o Brasil inteiro e para países do exterior, entre os quais os Estados Unidos, da Europa, da Ásia” — completou.
A palheta feita por Dona Helena em uma viola feita do luthier Marcos Evangelista
Eu tenho de lembrança da Dama da Viola, a sul-mato-grossense Helena Meirelles, além da sua cativante aura, duas preciosas peças materiais que já estão indo para o campo da relíquia, a saber, fragmento do ingresso para seu show em Salvador, dia 24 de julho de 1995, no Teatro Castro Alves, ao qual assisti, e uma de suas famosas e icônicas palhetas, que me foi presenteada pela violeira, em 1998, após apresentação no Pelourinho.
Eu estive com Dona Helena neste seu show no Pelourinho, quando a entrevistei para o jornal A Tarde, em companhia do divulgador da gravadora Eldorado em Salvador. Foi ele quem me trouxe, meses depois, a palheta (que a violeira me prometera), e foi ele, também, quem agendou uma segunda entrevista, pelo telefone, em março de 1999, para a revista Neon. Na ocasião, eu a agradeci pelo presente, que guardo com carinho e certa devoção, afinal, sou violeiro!
Dona Helena contou no documentário Helena Meirelles – a dama da viola, 2004, que, influenciada por violeiros paraguaios, ela fazia suas próprias palhetas, com farpas de chifre de boi, e sempre numa Sexta-feira Santa, sob um manto de sincretismo.
“(…) fazia toda Sexta-feira da Paixão… antes do sol nascer, debaixo da figueira, então eu peguei esse costume… toda a vida fiz minha palheta… eles que falavam e eu aprendi com eles, eu nunca vi o capeta…, mas isso foi invenção do capeta.”
Em novembro de 1993, Helena Meirelles teve sua palheta incluída entre as 100 mais da revista estadunidense Guitar Player, juntando-se roqueiros, jazzistas e bluesmen como Eric Clapton, George Benson, Keith Richards, na condição de único instrumentista brasileiro dessa condecoração. No ano seguinte, 1994, a gravadora Eldorado lançou seu primeiro disco.
A palheta que tenho foi feita pela própria Dona Helena, e que “não vendo, nem troco”, para repetir o grande Luiz Gonzaga e seu filho Gonzaguinha em diálogo, numa canção de autoria dos dois, no LP Gonzagão & Gonzaguinha juntos (RCA, 1991).
Helena Meirelles nasceu em Campo Grande, capital do atual Mato Grosso do Sul, a 13 de agosto de 1924, e faleceu a 28 de setembro de 2005. Ela viveu 81 anos, dos quais, mais de uma década como a “grande dama da viola”.