A Destemida Enedina Costa de Macêdo

Este texto foi alterado e ampliado com informações prestadas por familiares da professora Enedina Costa de Macêdo, que considerei de grande valia e que, juntadas às anteriores, muito enriquecem a publicação.

Enedina Costa de Macêdo

Com esta palavra — Destemida! — Kátia das Graças Macêdo Bonfim definiu a sua mãe, professora Enedina Costa de Macêdo, que completaria 109 anos no dia 24 de outubro próximo; faleceu a 27 de agosto de 2017, dois meses antes de chegar aos 100 anos. Corajosa, valente, de muito denodo; é como o dicionário da língua portuguesa define a pessoa destemida, e desta forma era a professora Enedina — sertaneja nascida a 24 de outubro de 1917, na fazenda Laranjo, atualmente Ceraíma, numa época em que a mulher vivia em condição de relativa incapacidade civil.

Seus pais foram Petronilha Petrina Pereira e Alcebíades Pereira da Costa, que após a filha concluir os estudos iniciais, em Guanambi, enviaram-na para Caetité, a cerca de 40 quilômetros, onde foi diplomada em Magistério pela Escola Normal, em 11 de dezembro de 1939. Duas décadas antes, no exato ano em que nascera, o então presidente Wenceslau Brás sancionara o Código Civil Brasileiro — que vigoraria até 2003. Por este estatuto, a mulher, em especial a casada, não possuía autonomia jurídica para gerir sua própria vida: dependia da autorização do marido para diversos atos da vida civil. Estava equiparada ao menor de idade (entre 16 e 21 anos) e ao indígena tutelado. Precisava da permissão do marido para, dentre outras situações, trabalhar fora de casa, viajar ou receber herança.

A mulher brasileira permaneceu nesta circunstância até 1962, quando entrou em vigor a Lei nº 4.121, chamada de Estatuto da Mulher Casada, que lhe assegurou a plena capacidade civil e o direito de ter bens próprios. Por essa época, Enedina já se encontrava casada — casara-se, em janeiro de 1950, com Antônio Neves de Macêdo. “Em toda a sua vida, (minha) mãe jamais desistiu de algo que desejasse realizar; ela sempre foi assim, desde que iniciou os estudos, em Guanambi, e mais ainda em Caetité, onde encontrou ambiente propício para defender o direito da mulher.” — relata Kátia Bonfim. .

Antes mesmo de quebrados os grilhões pelo Estatuto da Mulher Casada, a já diplomada professora Enedina Costa de Macêdo dispensava qualquer autorização que fosse, para trabalhar pela Educação. Em 1941, assumiu o cargo de professora municipal na fazenda Volta e, em seguida, no distrito de Ceraíma; em 1942, após aprovada em concurso do Instituto Normal da Bahia, em Salvador, assumiu a regência da 3ª Classe do Grupo Escolar Getúlio Vargas, no dia 23 de abril; por duas vezes — abril de 1949 a maio de 1951 e março de 1952 a maio de 1955 — foi diretora deste grupo escolar.

Em 1954, depois de concluir o curso de datilografia, pela Escola Costa Santos, em Caetité, fundou a primeira escola de datilografia de Guanambi, à qual deu o nome de Santa Rita de Cássia, quando, também, integrou a equipe de criação do primeiro ginásio escolar de Guanambi, ampliado para Ginásio e Escola Normal de Guanambi, onde lecionou História Geral e História do Brasil, de 1954 a 1957, ano em que se afastou, para fundar a Escola Primária São Lucas. Em 1959 esta escola foi transformada em ginásio e escola normal, do qual foi proprietária, fundadora e diretora.

Aos 45 anos de idade, nas eleições municipais de 1962, Enedina Costa de Macêdo disputou uma vaga para a Câmara Municipal de Vereadores de Guanambi, pela União Democrática Nacional (UDN), mas não se elegeu, ficando com a terceira suplência. À época, o vereador Lino Teixeira fora eleito pelo mesmo partido, com 480 votos.

Eu tinha nove anos de idade quando a professora Enedina concorreu à Câmara Municipal, mas esta informação somente chegaria ao meu conhecimento muitos anos depois, da mesma forma que outros fatos da vida desta destemida mulher, dada à desatenção com que costumavam ser tratados os feitos locais.

CARINHOSA E AMOROSA

Seus familiares destacam que Dona Enedina sempre foi carinhosa e amorosa com os netos, e que a convivência diária fez com que os vínculos se tornassem ainda mais fortes e profundos, a ponto de eles terem várias recordações dela, principalmente nas fases da infância e da sala de aula, desde a ajuda com tarefas escolares ao orgulho por poderem levar para a escola, nas feiras de conhecimento, suas coleções de águas de rios do Brasil e do mundo, como Tejo, Sena, Tâmisa, Reno; dos mares da Galileia, Morto, Mediterrâneo, Vermelho, e água do Poço de Jacó, além de outros registros históricos de viagens que fez.

Em prestimosa resposta a uma série de perguntas sobre a sua mãe, assim Kátia Bonfim relata:

— Todos os netos têm muito orgulho da história dela, e presenciaram diversas situações em que a “vó Enedina ou vó Nede” era abordada na rua, em eventos, por pessoas que lhe demonstravam o maior o respeito e deferência, sempre exaltando e mencionando seus feitos e papel na educação e na formação de grandes nomes da sociedade em nossa região. Os netos puderam, não somente presenciar, também participar de homenagens que ela recebeu ainda em vida, compartilhando sua admiração. Os encontros com os bisnetos eram sempre repletos de muito amor, e eram a sua maior alegria, pois dado ao fato de morarem em outras cidades, esses momentos juntos eram preciosos e eles guardam as melhores lembranças da Bisa.

Não foi fácil à professora cuidar da família e, ao mesmo tempo, dedicar-se a uma profissão pouco valorizada, numa região do sertão baiano — e por conta disso veio-me a pergunta, feita à sua filha, quanto às dificuldades, se é que ela reclamava, encontradas por Dona Enedina para seguir com sua missão de educadora, levando em conta que, ainda nos tempos atuais, a mulher não recebe o tratamento que lhe é de direito.

A respeito, responde Kátia Bonfim:

— Mãe nunca reclamou sobre nenhuma questão de trabalho, nunca a ouvimos queixar-se ou mesmo mencionar qualquer situação de dificuldade com relação ao trabalho; era muito dedicada e amava o que fazia. Ela lidava com todas as questões relacionadas ao colégio e à educação com muito esmero, dedicação e comprometimento. À época, a profissão de professora ocupava uma outra posição na sociedade, havia mais reconhecimento e maior valorização por parte da sociedade, haja vista ser considerada uma educadora de fato, participante efetiva da formação e educação dos alunos, não apenas atuante pedagógica. E (minha) mãe, por ser, além de professora, diretora de escola, sempre foi muito reconhecida e valorizada por sua competência e comprometimento; era uma voz respeitada na cidade, sempre consultada em diversos assuntos relativos à educação no município. E essa valorização e reconhecimento permanecem até os dias atuais, tanto que sua memória é sempre tratada com deferência, e todos, quando se referem a ela, enfatizam sua trajetória e atuação na educação de Guanambi com respeito, consideração e apreço.

ELEGÂNCIA E CONHECIMENTO

Conheci a professor Enedina no primeiro semestre de 1964, quando prestava exame para minha admissão ao curso ginasial, no Ginásio São Lucas, e “conhecer” é maneira de dizer, pois eu apenas a vi passar por um grupo de estudantes, entre os quais eu me encontrava, ao lado do meu primo Generaldo Teixeira (Ladim). Estes estudantes, já veteranos, debatiam a então chamada de “Revolução de Março”, que acabara de ser perpetrada por militares das Forças Armadas brasileiras na condição de um — agora já sabido — golpe militar.

Elegância no trajar e no andar

Confesso que não me lembro da conversa e sequer sabia exatamente o que havia ocorrido naqueles meses de março e abril de 1964, mas ficou na minha memória a curta frase dita com elegância e humor pela então diretora do São Lucas: “Estudem!…”

Anos depois, e não mais residindo em Guanambi, matutei sobre aquela frase e então pude entender a mensagem, posteriormente refletida nas ações da destemida professora. A História deve ser estudada, o que quer dizer, apreendida, não apenas absorvida dos textos impressos nos livros, geralmente escritos pelos vencedores. Segui por este caminho.

Sempre elegante no trajar e no andar, a circular pelos corredores e salas do Ginásio e da Escola Normal São Lucas, Dona Enedina — assim era chamada pelos alunos — desfrutava da consideração de todos. Não era temor, era respeito, admiração diante da deferência que ela dispensava a alunos, professores e funcionários diante de alguma falha, embora fosse severa, especialmente se a quebra do regimento interno.

“Lá vem Dona Enedina!” — ouvia-se, de um ou de outro, a modo de alerta, no caso de algo irregular estar sendo engendrado. Rapazes abotoavam a camisa, ajeitavam o cadarço do sapato ou cabelo; moças cuidavam de acomodarem-se adequadamente nos bancos de cimento na área de lazer, e cada qual em sua ala, pois o pátio estava dividido em duas partes: uma feminina e outra masculina, separadas por um muro. Um funcionário cuidava da fiscalização e, sob situação alguma, havia mistura de homens e mulheres no intervalo das aulas. “Já foi embora!” — aí todos relaxavam-se.

E seguia Dona Enedina. Suas vestes, geralmente uma saia de corte reto, de comprimento na altura dos joelhos, encimada por uma blusa com gola, de mangas curtas, e um casaco do mesmo tecido, demostravam o guarda-roupa de uma mulher moderna. A cor sempre sóbria, fosse azul, rosa ou cinza. Não à toa um modelo popularizado por ícones como a cantora Nara Leão, numa combinação de elementos que criavam uma silhueta feminina e elegante, sem exageros. Assim trajada, circulava pelos corredores do colégio e, com frequência, participava de atividades de sala de aula, ao lado dos alunos, e sempre registradas em fotos. A professora Enedina era amada e respeitada, também temida, talvez pelo alto cargo que exercia. Confesso que, eu mesmo, tremia de medo quando ela olhava para mim: achava que havia feito algo de errado. Mas não, ela me olhava e sorria, como se fazem os avós, os tios mais velhos. Ela sempre agiu assim: olhava para os alunos e sorria, com aquele sorriso fino, amigável e de aprovação.

Presente nas atividades de sala de aula; no cículo, o aluno Ari Donato

Quando em maio passado conversei com Kátia Bonfim, a quem eu conhecia do ginásio São Lucas, embora guardássemos uma certa distância, devido à diferença de idade e posição social, ela confirmou aquela impressão minha a respeito de Dona Enedina:

— Mãe separava muito bem as coisas, os seus papeis como professora e diretora, na escola; e em casa, em que era uma mãe normal, fazendo as suas atividades cotidianas, cuidando e educando com muita dedicação. Na verdade, ela nem chegava a mencionar assuntos do colégio em casa, e tínhamos a rotina normal de uma família tradicional, cada uma com as suas atribuições e deveres. Mas, no colégio, claro, eu e minha irmã éramos muito observadas, justamente por sermos as filhas da diretora da escola e, por isso, era esperado de nós que tivéssemos sempre um comportamento exemplar. O nosso comportamento no colégio com os colegas e amigos era típico e comum aos jovens da nossa idade e da época, entretanto, sabíamos que qualquer “deslize” seria levado ao conhecimento de mãe rapidamente, pois éramos as “filhas da diretora”, e não podíamos fazer nada de errado.  Qualquer coisa diferente que a gente fizesse, mãe seria a primeira a saber, pois não havia como esconder nada dela no ambiente da escola.

TESTEMUNHA DAS MUDANÇAS

A partir da implantação do voto feminino, em 1932, no Governo Getúlio Vargas, a trajetória da mulher brasileira mostra-se marcada pela transição de um estado de relativa incapacidade civil para a igualdade jurídica e social. Ao longo desta caminhada histórica despontava, na região de Guanambi, a professora Enedina Costa de Macêdo, que acompanhou, de maneira participativa, toda esta histórica revolução. Veja alguns momentos:

1962 — Estatuto da Mulher Casada — Até então a mulher casada era considerada “relativamente incapaz” pelo Código Civil de 1916: precisava de autorização do marido para trabalhar fora, viajar ou receber herança. A Lei nº 4.121/62 devolveu à mulher a plena capacidade civil e o direito de ter bens próprios.
1977 — Lei do Divórcio — A Lei nº 6.515/77 foi um divisor na autonomia feminina e na estrutura familiar brasileira. Antes dela, o casamento era indissolúvel, existia apenas o desquite, que não permitia novo matrimônio.
1988 — Constituição Federal, promulgada em 5 de outubro — Conhecida como Constituição Cidadã, transformou-se no marco mais significativo para a igualdade de gênero ao estabelecer igualdade jurídica: homens e mulheres iguais em direitos e obrigações (Art. 5º, I); direitos trabalhistas: licença-maternidade de 120 dias e proteção do mercado de trabalho contra discriminação; chefia familiar: o poder familiar passou a ser exercido igualmente por ambos os cônjuges.
2006 — Lei Maria da Penha — Criados mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar, estabelecendo medidas protetivas e punições mais rigorosas.
2013 — PEC das Domésticas — A Emenda Constitucional nº 72/2013 garantiu ao trabalhador doméstico, uma categoria composta majoritariamente por mulheres, direitos já assegurados aos demais profissionais pela Constituição de 1988.
2015 — Lei do Feminicídio — O assassinato de mulheres motivado por questões de gênero passou a ser crime hediondo.

CRONOLOGIA DE UMA JORNADA

Em agosto de 2017, por ocasião do falecimento da professora Enedina Costa de Macêdo, o jornalista João Roberto Teixeira fez uma cronologia da sua jornada de educadora, que publicou no site de notícias Agência Sertão.
Transcrevemos, com a devida autorização, o artigo do autor (LEIA aqui):

1917 — Nasce na fazenda Laranjo, no município de Guanambi, filha de Petronilha Petrina Pereira e Alcebíades Pereira da Costa;
1939 — Diploma-se em magistério pela Escola Normal, em Caetité;
1940 — Agente recenseadora no município de Guanambi;
1941 — Nomeada professora municipal, leciona na fazenda Volta, depois no distrito de Ceraíma;
1942 — Aprovada no concurso do Instituto Normal da Bahia, é nomeada e designada, a 31 de março, como regente da 3ª classe do Grupo Escolar Getúlio Vargas, iniciando sua função em 23 de abril;
1947 — Estuda na Escola de Enfermagem Carlos Chagas, em Belo Horizonte (MG), por oito meses;
1949 — Assume a direção do Grupo Escolar Getúlio Vargas, de abril de 1949 a maio de 1951 e de março de 1952 a maio de 1955;
1950 — Casa-se em 27 de janeiro, com Antônio Neves de Macêdo, nascendo dessa união as filhas (gêmeas) Kátia das Graças e Aparecida Kátia;
1952 — Diploma-se em datilografia pela Escola Costa Santos, em Caetité;
1954 — Funda a primeira escola de datilografia em Guanambi;
1954 — Membro integrante da equipe do primeiro ginásio de Guanambi, onde lecionou História Geral e História do Brasil até 1957;
1957 — Funda a escola primária São Lucas;
1959 — Transforma a escola em Ginásio e Escola Normal São Lucas;
1962 — Candidata-se a uma vaga na Câmara de Vereadores de Guanambi, ficando como terceira suplente;
1966 — Participa da Segunda Missão Pedagógica promovida pela Inspetoria de Ensino Secundário em Caetité, na condição de diretora;
1969 — Representa o Colégio São Lucas na missão pedagógica promovida pela inspetoria seccional de ensino secundário, em Bom Jesus da Lapa;
1970 — Aposenta-se com vinte e oito anos de serviço em sala de aula, em 28 de julho;
1971 — Participa do Primeiro Encontro Nacional de Professores Licenciados do Brasil – secção da Bahia;
1975 — Condecorada em Roma pela participação ativa da peregrinação à Europa e Terra Santa, promovida pelo grupo Família Salesiana do Brasil;
1976 — Condecorada pelo BNH Clube de Guanambi – Honra ao mérito, em reconhecimento aos relevantes serviços prestados à comunidade guanambiense no setor de educação;
1992 — Menção honrosa com medalha Laert Ribeiro da Silva, pelos serviços prestados no setor educacional da comunidade;
1994 — Homenageada pela Prefeitura Municipal de Guanambi, fazendo constar seu nome em um dos colégios municipais desta cidade – Colégio Municipal Professora Enedina Costa de Macêdo. Bairro Araújo. L 001;
Diploma de Sócio Correspondente, concedido pela Academia Guanambiense de Letras, pelos trabalhos prestados à cultura brasileira;
2004 — Escreve os livros Do Laranjo à Volta, que narra a história e genealogia da Família Pereira da Costa, aos 85 anos; As 4 Bandeiras, aos 87 anos, relatando suas viagens pelo Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina;
2014 — Escreve o terceiro livro, aos 88 anos, O mundo lá fora, descrevendo as viagens pela Europa e Terra Santa, a realização de um sonho de infância. 2017 — Falece a 27 de agosto, dois meses antes de completar 100 anos, em São Paulo, onde passava parte do ano, já que se dividia entre a capital paulistana e Guanambi, junto às duas filhas, que residiam, respectivamente, nessas cidades. 

Canta seriema

Na foto de Márcia Costa, seriema em condomínio residencial, na cidade de Guanambi – BA

Canta seriema! Canta
esse teu canto que encanta!
Esse canto inconfundível,
de glissando e percussivo,
imponente — lá do campo!
Canta seriema, canta!

Que me dizes?! Impossível
ressoar, além dos montes,
teu lamento musical?
Tua estridente cantiga
não mais tine no horizonte —
como antes — da Caatinga?

Por que se devastou tudo,
não se pode mais ouvir,
no começo da manhã
ou final de tardes belas,
teu canto de anfitriã —
que hoje toco à viola!

Pelas minguadas pastagens,
matas ralas e banguelas,
teu cantar — acelerado —
soa qual uma risada.
Inda que seja lamento
de tristeza e sentimento.

Canta seriema, canta!
Tenha pena, tenha dó
do poeta que — na infância —
brincava pelo arredor.
Volta seriema, canta
esse canto que me encanta!

Ari Donato / Guanambi / 2026

Seu segredo

A Rose Fernandes

Que mágica traz você
escondida em suas mãos,
com a qual domina cores;
retrata nuvens e mares?

Quem lhe deu tal aptidão?
Diga-me, que divindade
lançou-lhe do alto esse dom?

Saberão as aves no céu
ou os peixes — na infinidade
sua — nos cinco oceanos?
Não, certamente que não!

Nem a centenária árvore —
vista que tanto lhe inspira —
descobriu esse segredo.

Anos à beira da estrada,
seus galhos, folhas e troncos
louvam você quando passa;
ouvem suas confissões…

Mas não sabem da furtiva
arte — na ponta dos dedos —
que você tem em segredo!

Ari Donato / Salvador / 2026

A literatura da viola

  • Este texto foi escrito para o Portal Viola Caipira, do artista plural Yassir Chediak, em 2013, e lá pode ser lido, juntamente com outros textos voltados para os amantes da cultura de raiz
O violeiro, óleo sobre tela, do piracicabano José Ferraz de Almeida Júnior

A viola de arame, de dez cordas dispostas em cinco ordens, aportou no Brasil na metade do século XVI, a tiracolo dos colonizadores portugueses e dos padres jesuítas. Os primeiros trouxeram o instrumento para animar folguedos; os outros, para utilizar no processo de catequização do índio nas terras recém-descobertas.

Desde a colonização diversas citações na literatura brasileira testemunham ter sido a viola, se não o mais popular, certamente um dos mais importantes instrumentos no acompanhamento da modinha e do lundu nos séculos seguintes.

No romance histórico As mulheres de mantilha, ambientado entre 1763 e 1767, na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, à época capital do Brasil, o escritor fluminense Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882) dá depoimento do uso da viola em alegres reuniões noturnas da sociedade local.

Em um desses agrupamentos, uma moça, ao tomar de uma viola para cantar um lundu, é perguntada por um presente qual a razão de não cantar acompanhando-se ao cravo? E o diálogo, em seguida, vem nestes termos:

“O cravo é mais nobre, pertence às xácaras e às baladas; o lundu é mais plebeu e cabe de direito à viola, que é o instrumento do povo”.

O lundu é canto de origem africana, que teve grande destaque no Brasil do final do século XVIII ao começo do XIX, enquanto a xácara, canção de versos sentimentais, de origem árabe, tornou-se popular na Península Ibérica, por volta do século XVII.

O pesquisador de música e radialista baiano de Juazeiro, Perfilino Eugênio Ferreira Neto, 68 anos, escreveu, em 2000, na apresentação da coletânea Do lundu ao axé, que o poeta soteropolitano Gregório de Mattos Guerra (1633-1696) “fazia conquistas amorosas no recôncavo baiano, cantando lundus com versos saídos da imaginação e acompanhando-se numa viola de arame, por ele mesmo improvisada”.

No conto infantil A festa no céu, do folclore brasileiro, é relatada a façanha do sapo que voou com o urubu, dentro de uma viola. Ao longo de toda a narrativa, o instrumento é citado quase uma dezena de vezes – algumas versões fazem referência ao violão, mas este instrumento somente passou a ser conhecido do brasileiro por volta de 1830.

O cearense José de Alencar (1829-1877) também escreveu romances históricos inspirando-se no passado do Brasil, e um deles foi Guerra dos Mascates, em 1873, onde, em uma das passagens, apresenta o personagem Cosme, vítima do cacoete, com gesto rápido, passar pelos beiços a unha do polegar da mão direita e esfregá-la ao peito, contra a roupa.

Para descrever a luta do infeliz personagem, José de Alencar vale-se da imagem do violeiro, narrando que, mesmo após colocar muitos meios em prática para combater o cacoete, o roedor de unhas “via com desespero o brejeiro do dedo tocando viola no peito da roupeta”. O tocador não tange, com a unha do polegar direito, as cordas da viola, apertada contra o peito?

Duas décadas antes, o fluminense Manuel Antônio de Almeida (1830-1861) escreveu mais do que o cearense e citou a viola em cerca de 15 passagens no romance Memórias de um sargento de milícias, divulgado pela primeira vez, de junho de 1852 a julho de 1853, em folhetins, e publicado, em 1863, em edição póstuma.

Bom narrador, o fluminense deixa um pouco de falar das características do sargento Leonardo e se aventura, com sorte, a exaltar a música difundida pela viola. Ao descrever o ambiente de uma festa, ele narra: “(…) A música é diferente para cada uma, porém sempre tocada em viola. Muitas vezes o tocador canta em certos compassos uma cantiga às vezes de pensamento verdadeiramente poético”.

Igualmente, em um trecho do romance A ilustre casa de Ramires, de 1900, o escritor português Eça de Queiroz (1845-1900) cita, com destaque, a viola de arame: “E até Videirinha, que de novo afinava a viola, se preparava para um solto descante ao luar, murmurou respeitosamente por entre abafados arpejos: – Não vale a pena, Sr. Doutor… Realmente não vale a pena, porque em Política hoje é branco, amanhã é negro, e depois, zás, tudo é nada!” Outro fluminense, Raul Pompéia (1863-1895), mesmo que por uma única vez, faz alusão ao som da viola em Uma tragédia no Amazonas, romance publicado em 1880. Ao falar da alegria na casa do ex-subdelegado Eustáquio, nos dias do nascimento do seu filho, narra: “(…) Lá dentro, entre suas pobres paredes de barro, mãos de rústico, lassas do ferro agrícola, tiravam das cordas de uma viola acordes cadenciados, de um encanto que só pode avaliar quem já os ouviu, os quais mergulhando na floresta iam suavizar o sono das avezinhas”.

São muitos os romances de autores brasileiros e portugueses onde a viola, como instrumento musical, aparece em meio a personagens, na maioria das vezes com perfil de homem rural, de mãos rústicas e marcadas pelo trabalho duro, mas capazes de tirar belas melodias das cordas de arame. Tão contagiantes essas melodias que no século XV, em Ponte de Lima (Portugal), procuradores fizeram reclamação de alguns aspectos que consideraram daninhos ao reino. Citando documentos datados de 1459, o compositor e pesquisador mineiro Roberto Corrêa, 69 anos, diz em seu livro A arte de pontear a viola, de 2000, que dentre alguns desses males está registrado que certas pessoas usavam a viola para, tocando e cantando, mais facilmente roubarem as casas e dormirem com as mulheres, filhas e criadas, que, quando “ouvem o tanger a viola, vam-lhes desfechar as portas”.

Tal qual exprimem os versos do poeta baiano Castro Alves (1847-1871) no canto Os três amores, que está em Espumas flutuantes:

Os três amores
1

Minh’alma é como a fronte sonhadora
Do louco bardo, que Ferrara chora…
Sou Tasso!… a primavera de teus risos
De minha vida as solidões enflora…
Longe de ti eu bebo os teus perfumes,
Sigo na terra de teu passo os lumes…
– Tu és Eleonora…
2
Meu coração desmaia pensativo,
Cismando em tua rosa predileta.
Sou teu pálido amante vaporoso,
Sou teu Romeu… teu lânguido poeta!…
Sonho-te às vezes virgem… seminua…
Roubo-te um casto beijo à luz da lua…
– E tu és Julieta…
3
Na volúpia das noites andaluzas
O sangue ardente em minhas veias rola…
Sou D. Juan!… Donzelas amorosas,
Vós conheceis-me os trenos na viola!
Sobre o leito do amor teu seio brilha…
Eu morro, se desfaço-te a mantilha…
Tu és – Júlia, a Espanhola!. . .

E em Maria e O bandolim da desgraça, ambos em Cachoeira de Paulo Afonso:

Maria
Onde vais à tardezinha,
Mucama tão bonitinha,
Morena flor do sertão?
A grama um beijo te furta
Por baixo da saia curta,
Que a perna te esconde em vão…
Mimosa flor das escravas!
O bando das rolas bravas
Voou com medo de ti!…
Levas hoje algum segredo…
Pois te voltaste com medo
Ao grito do bem-te-vi!
Serão amores deveras?
Ah! Quem dessas primaveras
Pudesse a flor apanhar!
E contigo, ao tom d’aragem,
Sonhar na rede selvagem…
À sombra do azul palmar!
Bem feliz quem na viola
Te ouvisse a moda espanhola
Da lua ao frouxo clarão…
Com a luz dos astros — por círios,
Por leito — um leito de lírios…
E por tenda — a solidão!

O bandolim da desgraça
Quando de amor a Americana douda
A moda tange na febril viola,
E a mão febrenta sobre a corda fina
Nervosa, ardente, sacudida rola.
A gusla geme, s’estorcendo em ânsias,
Rompem gemidos do instrumento em pranto…
Choro indizível… comprimir de peitos…
Queixas, soluços… desvairado canto!
E mais dorida a melodia arqueja!
E mais nervosa corre a mão nas cordas!…
Ai! tem piedade das crianças louras
Que soluçando no instrumento acordas!…
“Ai! tem piedade dos meus seios trêmulos…”

Diz estalando o bandolim queixoso.

… E a mão palpita-lhe apertando as fibras…
E fere, e fere em dedilhar nervoso!…
Sobre o regaço da mulher trigueira,
Doida, cruel, a execução delira!…
Então — co’as unhas cor-de-rosa, a moça,
Quebrando as cordas, o instrumento atira!…

Onde vais à tardezinha,
Mucama tão bonitinha,
Morena flor do sertão?
A grama um beijo te furta
Por baixo da saia curta,
Que a perna te esconde em vão…
Mimosa flor das escravas!
O bando das rolas bravas
Voou com medo de ti!…
Levas hoje algum segredo…
Pois te voltaste com medo
Ao grito do bem-te-vi!
Serão amores deveras?
Ah! Quem dessas primaveras
Pudesse a flor apanhar!
E contigo, ao tom d’aragem,
Sonhar na rede selvagem…
À sombra do azul palmar!
Bem feliz quem na viola
Te ouvisse a moda espanhola
Da lua ao frouxo clarão…
Com a luz dos astros — por círios,
Por leito — um leito de lírios…
E por tenda — a solidão!

Assim, Desgraça, quando tu, maldita!
As cordas d’alma delirante vibras…
Como os teus dedos espedaçam rijos
Uma por uma do infeliz as fibras!
— Basta —, murmura esse instrumento vivo.
— Basta —, murmura o coração rangendo,
E tu, no entanto, num rasgar de artérias,
Feres lasciva em dedilhar tremendo.
Crença, esperança, mocidade e glória,
Aos teus arpejos, — gemebundas morrem!…
Resta uma corda… — a dos amores puros — …
E mais ardentes os teus dedos correm!…
E quando farta a cortesã cansada
A pobre gusla no tapete atira,
Que resta?… — Uma alma — que não tem mais vida!
Olhos — sem pranto! Desmontada — lira!!!

Lino Teixeira, nove vezes vereador

A última das demoradas conversas que eu mantive com meu tio Lino Teixeira — ex-vereador de Guanambi, a quem eu chamava de Sô — ocorreu em abril de 2022, quando o Ministério da Saúde declarava o fim da Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (Espin), causada pela pandemia da Covid-19. Foi praticamente a última das nossas conversas, pois no dia 29 de setembro de 2023 ele viria a falecer, aos 95 anos de idade.

À época, um clima carregado antecedia as eleições presidenciais, e tratamos disso. Eu me vali da larga experiência política do meu tio, iniciada em 1951, pelo PSD, e ampliada em outros partidos ao longo dos anos.

“Ari — ele me olhava com olhar paternal, era o irmão mais velho da minha mãe —, os eleitores do Dr. Fernandes, chamados de caititus, e os do coronel Balbino Cajaíba, de morcegos, dividiram a política de Guanambi ao meio nos anos 1920, 1930; depois vieram, entre 1960 e 1980, os jacus, do Dr. José Humberto Nunes, e os carcarás, que seguiam José Neves Teixeira (Binha) e Nilo Coelho. Uma dissidência terminou separando politicamente esses dois líderes, de modo que Binha juntou-se aos jacus e Nilo Coelho permaneceu com os carcarás. Nos anos seguintes as rixas diminuíram, quase acabaram, mas tudo voltou, com brigas desnecessárias, pois política é feita de conversa, de entendimento, na busca do bem de todos.” — Eu ouvia atentamente.

Lino Teixeira

Eu gostava de conversar com meu tio Sô, e falávamos sobre coisas da nossa família e da história de Guanambi, mais ainda da política, afinal ele exercera nove vezes o mandato de vereador nos períodos legislativos de 1951 a 1989. “Somei 38 anos e nove meses como vereador” — narrava, com ar sério.

Quando falava dessa fase histórica da política, o que muito me agradava, ele destacava que exercera os 25 primeiros anos sem remuneração. Também os demais edis não recebiam subsídio — que é a denominação do vencimento do vereador. Entre eles estiveram Etelvino Pereira Donato, Gileno Pereira Donato, Estelino Pereira Donato, meus primos, e Ezequias Manoel Cotrim, um outro tio meu. O historiador Dário Teixeira Cotrim, no livro Guanambi, aspectos históricos e genealógicos (Belo Horizonte, 1994), cita Lino Teixeira, com total acerto, como um dos primeiros líderes políticos do município.

Nas nossas conversas, enquanto eu, recém-formado jornalista pela Universidade Federal da Bahia, fazia perguntas e mais perguntas, meu tio picava fumo de rolo, para enrolar seu cigarro. Em meio a um riso e outro, respondia a tudo com paciência, vez por outra corrigido pela esposa, minha tia Maria Joaquina da Silva Teixeira — um nome nobre, para o leve apelido de Zizi.

NASCEU NO GENTIO, ATUAL CERAÍMA

Lino Teixeira nasceu no atual distrito de Ceraíma, no município de Guanambi, a 2 de fevereiro de 1928, quando o local tinha o nome de Gentio. A data do seu nascimento, por si, traz a força das águas, a força de Iemanjá, a “rainha do mar”, das religiões de matriz africana; a Nossa Senhora dos Navegantes, do catolicismo. Seus pais foram Domingos Antônio Teixeira e Maria Alice Cassimiro Teixeira — ambos meus avós maternos.

Domingos Teixeira, chamado Teixeirinha, exercera a chefia do Poder Executivo municipal em três ocasiões: as duas primeiras (de 12 de agosto de1943 a 11 de outubro de 1944; de 28 de dezembro de 1945 a 20 de maio de 1946) na interinidade e a terceira (31 de maio de 1947 a 2 de janeiro de 1948) por nomeação.

“Enquanto eu era vereador, trabalhava na roça e no comércio, para sustentar minha família, de oito filhos” — dizia, pitando seu cigarro, de onde saía uma fina e branca fumaça de cheiro forte e característico. Começou a trabalhar aos sete anos de idade, como ajudante do pai, na lavoura doméstica; aos nove anos já administrava a plantação, especialmente de arroz. Aos doze anos deixou o Gentio e foi morar com os avós paternos em Malhada, município baiano à margem direita do Médio São Francisco.

Seu filho, o historiador José Bonifácio Teixeira, diz que durante o período em que foi vereador, especialmente até 1972, o pai tinha como fontes de renda uma loja de tecidos e uma pequena produção rural no distrito de Morrinhos. Ele exerceu essas atividades de agricultor e comerciante até ingressar no serviço público.

AGRICULTOR EM MALHADA

Pouca coisa eu sei a respeito do meu bisavô, major Antônio Othon Teixeira, avô de Lino Teixeira — o que sei, ouvi, ainda criança, do meu avô Teixeirinha e, mais tarde, do meu tio. “Três meses depois de me mudar para Malhada meu avô Antônio Othon faleceu, então passei a tomar conta da fazenda dele, tocando a roça por alguns meses, até me mudar para Guanambi, no início de 1940, com minha avó Mariana da Silva Teixeira, quando fui montar meu próprio comércio em Ceraíma, dividindo as atividades entre as duas cidades, até 1962, ano em que deixei Ceraíma e fui com minha família para Morrinhos, e aí ficamos até 1972, quando eu me fixei, definitivamente, em Guanambi.” Nesta data Lino Teixeira ingressou no serviço público como guarda sanitário do Grupo Executivo de Erradicação da Febre Aftosa na Bahia, o conhecido Gerfab, criado em 1968 pelo Governo da Bahia para a erradicação da febra aftosa no estado.

VIDA POLÍTICA

Meu tio gostava de dizer que ingressara na vida política por indicação do líder político Generaldo Souza Teixeira — avô da sua esposa — e do chefe político José de Castro Bastos, o Dr. Juca — avô da deputada Ivana Bastos, filha do ex-deputado Fernando Borges Bastos — para representar, na Câmara Municipal, a população dos distritos de Morrinhos e Ceraíma, onde residiu por muito tempo com sua família.

Medalha Prisco Viana

Lino Teixeira iniciou sua carreira política pelo agora extinto Partido Social Democrático (PSD), fundado em 1945, em apoio aos governos de Eurico Gaspar Dutra (1946-1951) e Juscelino Kubitschek (1956-1961 — sem nenhum vínculo com a atual sigla PSD, criada em 2011.

Foi por aquele histórico PSD que Lino Teixeira elegeu-se para as duas primeiras legislaturas, de 1951 a 1954, com 234 votos, e de 1955 a 1958, com 475 votos. Na legislatura seguinte concorreu pelo Partido Libertador (PL) — fundado em 1928 e extinto em 1937, reaberto em 1945 e novamente extinto, em 1965 — que nada tem em comum com o atual PL (Partido Liberal) fundado em 1985.

Por aquele PL anterior, Lino Teixeira elegeu-se para o período de 1959 a 1962, voltando a ser eleito para novo mandato, de 1963 a 1966, pela UDN (União Democrática Brasileira), com 480 votos. Para o mandato de 1967 a 1970, pela Arena (Aliança Renovadora Nacional), com 630 votos; os períodos de 1971 a 1972, com 448 votos; de 1973 a 1976, com 602 votos; e de 1977 a 1982, com 624 votos, ainda pela Arena.

A 15 de novembro de 1982, já então filiado ao Partido Democrático Social (PDS), sucessor da Arena, elegeu-se para a nona, e sua última legislatura, com 1.004 votos.

FUNÇÃO DO PARLAMENTAR

Quando nossa conversa descambava para atividades parlamentares, meu tio desviava o assunto, e dizia que não era coisa para ele falar, “sim os outros”. O certo é que ele defendeu obras fundamentais para o desenvolvimento econômico e social de Guanambi. Pode-se citar o projeto de lei, de 1963, considerando de utilidade pública para fins de desapropriação área do terreno da Cova de Leocádia; apoio à solicitação de empréstimo para a construção da sede da Prefeitura Municipal, na rua Dr. José Fernandes, cujo prédio depois foi leiloado, com seu voto contra. Trabalhou pela construção de igrejas na Vila de Nova Ceraíma e no povoado de Morrinhos; participou da luta pela estadualização do Ginásio de Guanambi, sociedade particular que passou a ser o Colégio Estadual Luís Viana Filho; empenhou-se pela entrada em funcionamento, em 1975, do Hospital Santo Antônio, construído pela Associação dos Amigos de Guanambi e a Comissão do Vale do São Franscisco; e pela construção do fórum da Comarca.

O reconhecimento pela Câmara Municipal de Vereadores de Guanambi da militância política do vereador Lino Teixeira, em seus nove mandatos, resultou em atribuir seu nome ao auditório da Casa, de modo que passou a ser chamado Auditório Lino Teixeira; e a denominação da rua Vereador Lino Teixeira, no bairro Paraíso. Quando das comemorações pelo Centenário de Guanambi, em 2019, a Câmara Municipal concedeu-lhe a Medalha Prisco Viana (Mérito Legislativo 2018).

  • A avaliação de um parlamentar não necessariamente está ligada a quantos cargos assumiu, a quantas vezes presidiu a instituição a que integra, a quantos títulos ou medalhas recebeu, nem mesmo a quantos projetos apresentou, mas sim em quantas causas do interesse da comunidade ele votou a favor. A defesa do interesse comum é a função maior do parlamentar — não exatamente com estas palavras nem exatamente desta forma, mas esta definição eu ouvi do pai do meu tio Lino Teixeira, que vem a ser meu avô Domingos Antônio Teixeira (Teixeirinha).

O médico humanista José Humberto Nunes

Em abril deste ano de 2026, no dia 21, completaram-se 101 anos do nascimento de José Humberto Moreira Andrade Nunes, por três vezes prefeito da cidade de Guanambi, no interior da Bahia. Filho único do casal José Francisco Nunes e Idalice Moreira Andrade Nunes, ele nasceu em Salvador, no dia 21 de abril de 1925; faleceu na madrugada do dia 17 de abril de 2001, na mesma cidade, e foi sepultado no Cemitério Campo Santo, cercado de parentes, amigos e dezenas de guanambienses.

Quatro dias antes de completar 74 anos de idade, o então médico aposentado e ex-prefeito José Humberto – ou Zomberto, no falar apocopado do homem do campo – faleceu na UTI do Hospital Português, em Salvador. Foi a perda de um dos mais expressivos profissionais e homens públicos que Guanambi já teve em toda a sua história, desde que o município fora criado, em 1919.

MÉDICO HUMANISTA

José Humberto chegou a Guanambi no início dos anos 1950, recém-formado em Medicina pela Universidade Federal da Bahia, com os pais Sr. Nunes e Dona Idalice. O seu pai, um empreendedor português, foi proprietário da primeira banca de revistas na cidade, mas a formação humanista que deu ao filho foi o maior legado que transferiu para a cidade.

José Humberto Nunes

Atendendo a pessoas carentes das zonas urbanas e rurais de cerca de 10 municípios da região, o recém-formado médico destacou-se por combater, não apenas a doença, mas, na medida do possível, suas causas.

Costumava responder a quem lhe pedia que aviasse “um fortificante ou uma vitamina”, que tudo de que precisava “estava na quitanda da esquina: banana, manga, laranja, tomate, ovos, abóbora”. Aos mais necessitados, ele dava os medicamentos vitais.
Amado pelo povo, foi eleito prefeito em três ocasiões. Sua primeira eleição (1955–1959) foi a quinta ocorrida até então pelo voto direto; até então o município tivera a maioria de seus prefeitos nomeados. As outras foram nos períodos de 1963 a 1967 e 1971 a 1973.
Administrando um município recém-emancipado e de poucos recursos, distante do centro do poder estadual e padecendo de uma comunicação eficiente, José Humberto preferiu investir no social, voltar para um combate mais eficaz às endemias. Suas três administrações foram marcantes neste sentido.

Em 1967, ao encerrar o segundo mandato, apoiou seu secretário municipal de Administração, Jonas Rodrigues da Silva, que foi eleito prefeito (1967 a 1971), mas na eleição seguinte voltou a se candidatar e foi eleito para o terceiro mandato, que encerrou em 1973, deixando, como sucessor, novamente, seu secretário Jonas Rodrigues da Silva.

Em Guanambi, onde viveu por quase 30 anos, José Humberto trabalhou como médico pela Comissão do Vale do São Francisco (CVSF), depois Superintendência do Vale do São Francisco (Suvale) e, atualmente, Companhia do Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Codevasf), e pela Secretaria de Saúde do Estado. No final de 1976, transferiu-se para Salvador e trabalhou no Serviço Médico da Universidade Federal da Bahia por muitos anos, tendo sido seu diretor durante quase uma década.

HUMILDE E DEDICADO

Quando do seu sepultamento, sua esposa, Dona Maria de Lourdes Nunes, realçou as qualidades do marido: “Médico competente, humilde e dedicado, político honesto, leal e digno, extraordinária figura humana, que deixou aos seus um legado de honra, bondade, força e amor.”

Seu filho Sílvio Nunes, 62 anos, conta que, ainda criança, na residência da família, em Guanambi, ele era acordado frequentemente com pessoas batendo à janela do quarto, que dava para uma praça (José Ferreira), chamando seu pai para prestar um ou outro atendimento médico. “Eu acordava, levantava-me e ia até o quarto do meu pai, para chamá-lo, e isso era frequente!” – recorda o mais novo dos cinco irmãos: José Francisco (Guiguiu), José Humberto (Bebeto), Idalice e Maria Elvira.

Este texto não tem a pretensão de trazer algum fato histórico desconhecido do público nem a responsabilidade de levantar questões para debate. A intenção é trazer à memória figuras guanambienses; reverência e homenagem cabem às instituições locais criadas para tal função.

Guanambi, a cidade beija-flor!

Vista parcial da cidade de Guanambi, no suodeste da Bahia | Foto Ari Donato

O município de Guanambi, no sudoeste da Bahia, limita-se com os de Caetité, Igaporã, Pindaí, Candiba, Palmas de Monte Alto e Sebastião Laranjeiras. Seu clima é basicamente semiárido, com temperatura média anual de 22,6ºC e período de chuva entre os meses de novembro e fevereiro. Pela Lei Provincial n.º 1.779, de 23 de junho de 1880, foi criado, no município de Monte Alto, o distrito de Bela-Flor, com sede no arraial de Beija-Flor.

O atual município foi criado pela Lei Estadual nº 1.364, de 14 de agosto de 1919, desmembrado do de Monte Alto. A instalação ocorreu no dia 1º de janeiro de 1920, quando tomou posse como primeiro intendente o coronel Balbino Gabriel de Araújo Cajahyba. No mesmo dia, em acordo com a lei que criou o município, o intendente decretou a Lei Orçamentária para o exercício de 1920, que orçou a receita em 12 contos de réis.

BEIJA-FLOR; BEIJA-FLOR!

A história da formação do município de Guanambi liga as denominações Bela-Flor e Beija-Flor a uma tradicional festa católica que havia no arraial para homenagear Santo Antônio, padroeiro do local. Durante a cerimônia ocorria uma sessão de beijos e mimos à imagem do padroeiro, promovida por uma menina chamada Flor (que teria o nome de Florinda), filha da devota Bela (provavelmente Belarmina).

A maioria dos que assistiam à cerimônia era formada de jogadores de cartas e desocupados. No auge do folguedo, eles gritavam: “Beija, flô; beija flô”. Com o tempo, as preparações para esses festejos eram, no dizer dos participantes, para “o beija flô na casa de Bela”.

O historiador, poeta e ex-prefeito de Guanambi, Domingos Antônio Teixeira (1903-1976), não endossa esta versão. Em seu livro Respingos Históricos (Salvador, 1991), defende que o nome Beija-Flor, dado ao arraial, veio da pequena ave da família dos troquilídeos, da espécie dos colibris. Segundo o historiador, o terreno de vazante, contíguo ao centro do arraial, era coberto por flores silvestres, o que atraía quantidade de beija-flores a maior parte do ano.

A Lei Estadual nº 1.364, de 14 de agosto de 1919, que criou o município, determinou que os limites seriam os do antigo distrito de Bela-Flor, mas não os especificava. A administração municipal de Monte Alto havia criado o distrito de Lagoa da Espera, reduzindo a área do distrito de Bela-Flor e alterando os limites interdistritais.

Todavia importantes faixas territoriais de municípios fronteiriços foram absorvidas por Guanambi quando da fixação dos limites dos seus distritos, a exemplo de Lagoa da Espera, que teve o nome mudado para Itaguaçu, depois Mutãs, em razão de já haver, no estado do Espírito Santo, uma localidade com a denominação de Itaguaçu. Mutãs vem do tupi mutá, palanque ou assento no mato, onde o caçador espreita a caça.

No dia 8 de janeiro de 1920, o intendente Balbino Cajahyba sancionou a Lei nº 2, votada pelo Conselho Municipal, que criou os distritos de Paz de Guanambi, na sede, e o de Mocambo. Mas a lei somente chegou ao conhecimento público após referendada pela Lei Estadual nº 1.589, de 28 de agosto de 1922. Mocambo, mais tarde, em 1º de janeiro de 1945, por força de lei federal que definiu um novo quadro territorial nacional, recebeu o nome de Candiba. Sua autonomia política e administrativa viria em 1962.

FAMÍLIAS DESBRAVADORAS

As primeiras informações históricas acerca do surgimento do município de Guanambi remontam ao século XIX, com a doação de uma gleba, por Joaquim Dias Guimarães, para a construção de uma capela para Santo Antônio, tomado como padroeiro local.

Segundo relato de antigos moradores, o povoamento começou por volta de 1870, nas margens do rio Carnaíba de Dentro. E cresceu por força da abnegação de desbravadores, a exemplo dos Pereiras; Costas; Castros; Dias; e Guimarães, que se espalharam por toda a região do Gentio (atual Ceraíma), Matina, Riacho de Santana e Igaporã, intensificando a exploração agrícola e a pecuária.

Só em 1880, pela Lei Provincial nº 1.779, de 23 de junho, é que foi criado o distrito de Paz de Bela-Flor, ligado ao município de Monte Alto, e com sede no arraial de Beija-Flor. Embora oficialmente tivesse a denominação de Bela-Flor, por muito tempo persistiu o nome de Beija-Flor, com o qual se tornou conhecido.

A criação do município foi em 14 de agosto de 1919, desmembrado do de Monte Alto, com instalação a 1º de janeiro de 1920. Até o final dos anos 1980, o dia da instalação do município era celebrado como data cívica maior, sendo substituído pelo 14 de agosto, data da sua criação. A correção ocorreu no final dos anos 1990, numa iniciativa da Câmara de Vereadores, tendo à frente o vereador Paulo Costa Pereira, que mostrou o erro histórico e corrigiu o Dia da Cidade.

Guanambi tem uma área geográfica relativamente pequena: 1.272 quilômetros quadrados, dos quais cerca de 68 km2 estão no perímetro urbano e o restante em zona rural. Sua população, conforme estimativa do IBGE (2025), ultrapassa os 93 mil habitantes. Além da sede urbana, o município possui três distritos principais, a saber, Ceraíma, Morrinhos e Mutãs.

OUTRA HISTÓRIA

Na história de Guanambi destaca-se a construção do açude de Ceraíma, com espelho d’água de 58 milhões de metros cúbicos de água. Foi, por muito tempo, a principal fonte de abastecimento de água potável da cidade, depois substituída pelo rio São Francisco.

Segundo narração do historiador Domingos Antônio Teixeira no livro Respingos Históricos (p. 132), no dia 22 de julho de 1948 começaram os trabalhos preliminares para construção do açude, pelo Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (Dnocs). A primeira etapa da barragem foi concluída em 1958, mas as obras foram paralisadas pela empresa construtora. Com as chuvas de janeiro de 1959, a água começou a ser represada, encobrindo a vila de Ceraíma (uma nova foi construída nas margens do lago).

No dia 2 de fevereiro de 1960, uma enchente do rio Carnaíba de Dentro, afluente do Rio das Rãs, um tributário do São Francisco, rompeu a barragem, às 17h30, com prejuízos materiais, e duas mortes humanas (um homem e uma mulher) na localidade de Pau de Colher, segundo o mesmo historiador. A reconstrução do açude começou em março de 1964, por decisão do ministro de Obras Públicas, marechal Juarez Távora, que esteve na inauguração, em março de 1966.

Como potencial hidrográfico, o município de Guanambi tem ainda o rio Carnaíba de Dentro e os menores, Rega Pé, Belém, Poço do Magro e Muquém, todos temporários, que correm durante as chuvas. Dentre os açudes destaca-se, também, o do Poço do Magro.

Pedro Santos e a paixão pela viola caipira

Luthier Pedro Santos em sua oficina, na cidade de Guanambi, estado da Bahia

Tocar e construir viola são duas das coisas de que o violeiro e luthier guanambiense Pedro Santos, 59 anos, mais gosta. Porém uma atrapalha a outra; de modo que, por um bom tempo, ele foi obrigado a se afastar da primeira delas e seguir apenas com a luteria, a ponto de já haver fabricado cerca de 500 instrumentos, entre violas, violões, bandolins, banjos e cavaquinhos. “Para pagar as contas” — responde, sobre este afastamento.

Dias atrás, em conversa ao telefone, Pedro Santos me disse que voltará a participar de encontros de violeiros, já a partir deste mês de maio (2026), em Guanambi, no sudoeste da Bahia, a 120 quilômetros de Monte Azul (MG), onde nasceu o violeiro Tião Carreiro (nome artístico de José Dias Nunes). Foi então que me ocorreu refazer aquela pergunta sobre o porquê de ele haver se afastado dos toques e das cantorias daqueles tempos da dupla Laçador e Cedralense (João Pereira dos Santos e Olívio José Santana).

— Quando passei a fabricar instrumentos, foi algo que deu certo, que decolou rapidamente. Então, entre tocar e fabricar, tive que me dedicar à fabricação, porque é de onde saía o dinheiro para pagar minhas contas, pois eu havia mudado de profissão, e só tocar viola, principalmente aqui na região, não tinha como sobreviver disso… Houve outros motivos, mas o principal mesmo foi a luteria, que tomava tempo e exigia dedicação.

Há 50 anos que Pedro Silva convive com a viola caipira; sempre que nos encontramos falamos disso. “Eu comecei a tocar em 1978, mas somente uns dez ou onze anos depois fabriquei a primeira viola” — recorda o agora renomado luthier, fazendo questão de ressaltar que não abandonou a viola, e que viver da arte de tocar e de construir era o seu desejo, mas isto nunca deu certo. “Não cheguei a parar totalmente, tanto que durante o período em que estive afastado gravei alguma coisa em estúdio, gravei CD e tudo mais…” — conta, com ar sério.

A guinada em direção à construção de instrumentos de corda começou no final de 1989, mais exatamente no mês de dezembro, quando Pedro Santos ponteava uma viola. Nesta ocasião, aos 23 anos de idade, ele era um carpinteiro na fazenda Curral de Varas, no distrito de Morrinhos, no município de Guanambi, e notando que a sua viola já estava castigada pelo tempo e pelo uso, disse para si: “Viola é feita de madeira, sou carpinteiro, então vou fazer a minha.”

Antes de terminar 1990 ele já tinha a primeira viola pronta, que mantem guardada, nos moldes de um troféu. “É rústica, muito rústica mesmo, mas tenho comigo até hoje” — conta, e destaca que entre 1990 e 1997 construiu seis violas, 12 violões e três cavaquinhos, quando então parou a luteria, por não se apresentar como atividade rentosa, o que o desanimou. “Não dava dinheiro e eu tinha de cuidar da família, então voltei para a marcenaria, trabalhei como pedreiro, fiz outras coisas e assim fiquei uns sete anos, até que voltei à luteria, em 2001, animado pelos amigos” — recorda. A partir desta data ele passou a numerar seus instrumentos e deu a todos sua marca “PS” de artesão.

O trabalho artesanal de Pedro Santos, de perfeita transição, une a tradição de quem nasceu no “chão” da música de raiz com o rigor técnico da luteria de alto nível. Para retomar a arte de fazer violas, Pedro dos Santos voltou técnico, estilista e criterioso; adquiriu pinho sueco para usar nos tampos, em lugar do cedro rosa, e melhorou a qualidade das cravelhas, dos metais usados. Com a madeira importada, o preço do instrumento sofreu om aumento substancial.

— De quando eu retornei, em 2001 ou 2002, para cá, acho que já somam uns 500 instrumentos. Foi quando eu passei a enumerar, pois eu não levei em conta aqueles instrumentos da primeira etapa. Foram feitos sem informação, meio que sem conhecimento técnico, tanto é que eu desisti, e na época disse a mim: estou fazendo uma coisa que nem mesmo eu sei o que estou fazendo!

Tão logo retomou a luteria, no que chama de “segunda etapa”, Pedro Santos recebeu a primeira encomenda — deste jornalista e aprendiz de violeiro que vos escreve. O instrumento, uma VMC (Viola Marfim Caipira), de número 2, ficou pronto em agosto de 2002. Com o passar do tempo, diversificou a produção; passou para violão, banjo, bandolim e cavaquinho, enquanto a produção de viola sofria redução, a ponto de ficar até mais de um ano sem construir uma.

TOCAR E CONSTRUIR VIOLA

Certo feita, quando nos encontramos em Guanambi, eu perguntei: mestre Pedro, você deixou de construir viola? A resposta veio no tom de confissão, um tanto grave, entristecida, em meio a queixas das dores lombares que o acometeram nos últimos anos.

— Eu não deixei exatamente. É que quase não recebo encomendas, quase ninguém me pede. Quis o destino que eu fosse bem conhecido na construção do bandolim, então sou muito procurado para fazer bandolins, principalmente de 10 cordas, que envio a toda parte do Brasil e, também, o exterior. Mas viola, realmente, quase não tenho pedidos; de vez em quando acontece de eu fazer uma ou outra.

Pedro Santos acredita que uma das razões para a queda na encomenda da viola caipira seja mesmo o preço do instrumento artesanal, considerado alto, distante “da realidade” de muitos violeiros, mas diz que cobra um valor afinado com o dos demais luthiers. “Realmente, o preço que cobro por um instrumento está acima da realidade daqui da região, mas está dentro do preço da realidade da luteria no Brasil. A maioria dos que querem me encomendar um bandolim paga o preço que eu cobro, mas a maioria dos violeiros que querem me encomendar uma viola, não paga o preço que eu cobro. Por este motivo, eu acabo ficando com os bandolins, porque são os que mais aparecem” — diz, com ar entristecido.

Violão de 7 cordas

DIMINUIR O RITMO

Um outro fator, que não a falta de encomendas, tem feito com que ele reduza o ritmo de trabalho: “Minha a saúde!” — ele disse a mim, em entrevista, queixando-se da sua condição física, das dores que passou a sentir, e que têm dificultado seu trabalho. No começo, Pedro Santos fabricava uma viola em até duas semanas. “Pode ser que passasse um pouco, na busca da melhor acústica, da melhor madeira e da finalização, mas a média era 15 dias para entregar uma viola, um violão”.

— Minha condição física já não é mais a mesma dos tempos passados, por isso eu quero diminuir o ritmo. Eu enfrento dores na coluna, tenho tendinite, bursite e tudo mais. Eu faço tratamento para ir aguentando e, ultimamente, tenho atrasado até encomendas. Estou lutando para reorganizar esta questão de preço e prazo. Eu tenho feito, em média, 18 instrumentos por ano, porém quero diminuir este ritmo, que está muito puxado para mim, que trabalho sozinho. Eu mando encomendas para o Brasil inteiro, até para o exterior; daqui da região são poucas, muito dificilmente acontece uma ou outra.

Bandolim de 10 cordas

Pedro Santos começou fazendo violas para a região de Guanambi, depois vieram pedidos para construir outros instrumentos, procedentes de Salvador, de Anderson Cunha; Jair Soares, guitarrista de Caetité; Edson Sete Cordas; Ailton Reiner; Armandinho e Aroldo Macedo. Em seguida para o Rio de Janeiro, de Ronaldo do Bandolim; e Brasília, de Reco do Bandolim, presidente do Clube do Choro; Dudu Maia; Jorge Cardoso; Hamilton de Holanda. “E assim, tenho mandado para o Brasil inteiro e para países do exterior, entre os quais os Estados Unidos, da Europa, da Ásia” — completou.

O Brasil toca viola caipira desde 1549

O luthier Marcos Evangelista

A viola caipira, este esplêndido instrumento musical, que reúne no seu bojo inúmeras possibilidades para sua execução, é parte da história brasileira, haja vista haver aqui chegado, com o europeu explorador, no início do século XVI. É chamada de viola de 10 cordas ou viola brasileira, para realçar a dissemelhança com a família do violino, também chamada viola de arco, violeta ou alto, instrumento musical de arco e quatro cordas.

Segundo historiadores, a viola portuguesa de dez cordas, da qual se originou a atual viola caipira brasileira, foi trazida para o Brasil quando da Colonização. Chegou com os jesuítas, no Governo de Thomé de Souza, em 1549, e tinha como tarefa primeira auxiliar aqueles religiosos na catequização dos índios.

A violonista carioca e doutora em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Marcia Taborda, em seu livro Violão e identidade nacional (Civilização Brasileira, 2011, p. 41), registra que os jesuítas introduziram “de modo sistemático as violas e os demais instrumentos europeus”. Mas, acrescenta a professora, a viola era, também, comum entre os colonos portugueses.

Tanto que no livro A arte de pontear a viola (edição do autor, 2000, p. 21) o violeiro, compositor e pesquisador mineiro Roberto Corrêa diz, citando relatos históricos, que a viola “no século XV e, sobretudo no século XVI, era largamente difundida em Portugal, sendo considerada o principal instrumento dos jograis e cantares trovadorescos”.

Levando em conta as observações de Roberto Corrêa, por muito tempo a viola brasileira manteve a estrutura básica da ancestral portuguesa, com cravelhas de madeira, cavalete trabalhado e a regra – madeira do braço onde se fixam os trastes – no nível do tampo sonoro do instrumento. Assim eram as violas do Brasil ao longo dos anos da colonização.

Diz o pesquisador mineiro que, além de manter inalteradas as principais características originais, a viola trazida pelos jesuítas preservou o caráter popular e continua, ainda hoje, difundida e presente em várias das manifestações culturais tradicionais. Até o início do século XX sua construção era totalmente artesanal, adotando um processo familiar e que seguia os padrões da luteria portuguesa.

No início do século XX, a par do declínio da construção artesanal, surgiram as primeiras fábricas especializadas na produção em série de instrumentos musicais de corda no Brasil. As duas pioneiras na fabricação são a Giannini (1900) e a Del Vecchio (1902); a Rozini somente surgiria em 1995. Todas na cidade de São Paulo, e seguindo os modelos tradicionais.

MANTENDO A TRADIÇÃO

Por conta da própria história da viola no Brasil, da sua fabricação sob os auspícios dos religiosos da Companhia de Jesus, essa arte terminou por se espalhar por todo o País, e não há um Estado brasileiro onde não haja bons e refinados construtores de instrumentos de corda, entre os quais a viola caipira brasileira, de 10 cordas.

No estado de Goiás – na cidade de Aparecida de Goiânia, município da Região Metropolitana de Goiânia – está Marcos Evangelista de Freitas, 50  nos de idade, dos quais 25 anos com a luteria, tornando-se um dos mais conceituados luthiers do país. Em 2010, ele venceu o III Concurso Nacional de Luteria Enzo Bertelli, do Conservatório de Tatuí, no estado de São Paulo, concorrendo com uma réplica do Hauser 1937, violão do luthier alemão Hermann Hauser em que André Segóvia tocou.

Natural da cidade goiana de Rubiataba, Marcos mudou-se para Aparecida de Goiânia em 1990, levando na bagagem sua oficina especializada em construção de violões e de violas de dez cordas. No fabrico de seus instrumentos ele usa madeiras de tradição na luteria, como cedro vermelho, abeto alemão, imbuia, ébano, jacarandá da Bahia, mogno e maple de regiões da América do Norte e do sul e da Europa.

“Essas madeiras são escolhidas pela densidade, capacidade de projeção e qualidade de timbre e projetadas para violões de cordas de nylon e de aço. A madeira define a sonoridade do instrumento, se mais aguda ou mais grave” – explica.

Os violeiros Marcus Biancardini, Junior Goiano e Marcos Violeiro e a dupla André e Andrade estão entre os tocam em violas e violões fabricados por Marcos Evangelista de Freitas.

Em fevereiro de 2021, Marcos participou do curso on-line Imersão da viola caipira, do professor Paulo Tavares, em Goiânia, quando abordou a construção industrial de viola, da mais simples e barata à mais cara, e da produção artesanal, e falou sobre a sua vida profissional:

“Eu comecei na arte de construir instrumentos de corda no início dos anos 2000, como uma brincadeira, um passatempo. Gostei dos resultados e tomei como desafio, mas sem a pretensão de me destacar na fabricação de violas. Na medida em que meu trabalho foi agradando, passei a estudar e a pesquisar sobre a arte de construir a violas.”

Sem acesso às ferramentas adequadas, ele enfrentou dificuldades, mas, com esforço, foi vencendo etapas. “Atualmente há muita informação, seja em livros; na internet, em cursos on-line ou gravados; em universidades e escolas especializadas na arte de construir e de tocar a viola caipira. Agora, quem vai por esse caminho já encontra certas facilidades” – diz ele.

“Mas isso não quer dizer que a luteria seja algo fácil” – adverte Marcos, advertindo que o começo sempre é difícil. “Aqui em nosso estado o terreno é fértil, pois nas cidades goianas de um modo geral respira-se a chamada música raiz, com muitos e muitos cantores e duplas, o que facilita no desenvolvimento da profissão.”

BOM VIOLEIRO QUER BOA VIOLA

E, como diz o luthier, bom violeiro sempre busca um bom instrumento. E esse bom instrumento está mais ligado à produção artesanal do que às montagens industriais. “É claro que há bons instrumentos de fabricação industrial, não se pode negar; mas uma viola construída por um luthier tem probabilidade de durar mais, de apresentar um melhor timbre, e não há dúvida de que há diferença entre uma viola e outra, e mais ainda entre uma artesanal e uma de linha de produção industrial.”

O violeiro Marcus Biancardini

Marcos lembra que a viola produzida em escala industrial – a que se compra em lojas do ramo – é feita dentro de um processo produtivo, em que cada operário tem uma função específica, de trabalhar com uma determinada peça e, nessa condição, desse processo de produção, o operário nem sempre tem uma ideia exata do papel de cada peça no conjunto do instrumento, e isso pode prejudicar o bom funcionamento.

“É fundamental, a mecânica de cada peça no arcabouço do instrumento. Como na fabricação industrial de uma viola o processo é mais rápido do que na luteria, ainda com a possibilidade de o operário não ter a visão de conjunto, há riscos como, por exemplo, de uma colagem inadequada, da espessura de uma determinada peça que não ser a ideal. O luthier sabe da posição de cada peça e quando cada uma está ideal, e isso leva a um bom instrumento.”

Na linha de montagem industrial são dezenas de instrumentos produzidos em poucos dias, enquanto na luteria, com um só profissional trabalhando, da seleção da madeira até a afinação do instrumento, o fabrico pode chegar a um mês.

“Eu costumo gastar 20 dias’” – diz Marcos, lembrando que outra diferença que considera fundamental entre instrumento de linha de produção industrial e de luteria é o tempo de duração de cada um. “Um luthier não faz um instrumento para durar cinco ou seis anos; ele constrói um instrumento para passar de geração a geração, para durar mais de 100 anos.”

Por isso, ele justifica, é que uma viola, por exemplo, construída por um luthier custa mais. “Isso porque é grande o capricho do profissional, pois cada instrumento é como se fosse um filho, tem todo um processo de geração” – conclui Marcos Evangelista de Freitas.

INFORMAÇÕES

Marcos Evangelista de Freitas
Rua Cândida Santos Quadra 39 Lote 07, bairro Ilda, Aparecida de Goiânia.
Telefone 62-98230-4354.

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Giannini
Del Vecchi
Rozini

A palheta que Dona Helena me presenteou

A palheta feita por Dona Helena em uma viola feita do luthier Marcos Evangelista

Eu tenho de lembrança da Dama da Viola, a sul-mato-grossense Helena Meirelles, além da sua cativante aura, duas preciosas peças materiais que já estão indo para o campo da relíquia, a saber, fragmento do ingresso para seu show em Salvador, dia 24 de julho de 1995, no Teatro Castro Alves, ao qual assisti, e uma de suas famosas e icônicas palhetas, que me foi presenteada pela violeira, em 1998, após apresentação no Pelourinho.

Eu estive com Dona Helena neste seu show no Pelourinho, quando a entrevistei para o jornal A Tarde, em companhia do divulgador da gravadora Eldorado em Salvador. Foi ele quem me trouxe, meses depois, a palheta (que a violeira me prometera), e foi ele, também, quem agendou uma segunda entrevista, pelo telefone, em março de 1999, para a revista Neon. Na ocasião, eu a agradeci pelo presente, que guardo com carinho e certa devoção, afinal, sou violeiro!

Dona Helena contou no documentário Helena Meirelles – a dama da viola, 2004, que, influenciada por violeiros paraguaios, ela fazia suas próprias palhetas, com farpas de chifre de boi, e sempre numa Sexta-feira Santa, sob um manto de sincretismo.

“(…) fazia toda Sexta-feira da Paixão… antes do sol nascer, debaixo da figueira, então eu peguei esse costume… toda a vida fiz minha palheta… eles que falavam e eu aprendi com eles, eu nunca vi o capeta…, mas isso foi invenção do capeta.”

Em novembro de 1993, Helena Meirelles teve sua palheta incluída entre as 100 mais da revista estadunidense Guitar Player, juntando-se roqueiros, jazzistas e bluesmen como Eric Clapton, George Benson, Keith Richards, na condição de único instrumentista brasileiro dessa condecoração. No ano seguinte, 1994, a gravadora Eldorado lançou seu primeiro disco.

A palheta que tenho foi feita pela própria Dona Helena, e que “não vendo, nem troco”, para repetir o grande Luiz Gonzaga e seu filho Gonzaguinha em diálogo, numa canção de autoria dos dois, no LP Gonzagão & Gonzaguinha juntos (RCA, 1991).

Helena Meirelles nasceu em Campo Grande, capital do atual Mato Grosso do Sul, a 13 de agosto de 1924, e faleceu a 28 de setembro de 2005. Ela viveu 81 anos, dos quais, mais de uma década como a “grande dama da viola”.