Canta seriema

Na foto de Márcia Costa, seriema em condomínio residencial, na cidade de Guanambi – BA

Canta seriema! Canta
esse teu canto que encanta!
Esse canto inconfundível,
de glissando e percussivo,
imponente — lá do campo!
Canta seriema, canta!

Que me dizes?! Impossível
ressoar, além dos montes,
teu lamento musical?
Tua estridente cantiga
não mais tine no horizonte —
como antes — da Caatinga?

Por que se devastou tudo,
não se pode mais ouvir,
no começo da manhã
ou final de tardes belas,
teu canto de anfitriã —
que hoje toco à viola!

Pelas minguadas pastagens,
matas ralas e banguelas,
teu cantar — acelerado —
soa qual uma risada.
Inda que seja lamento
de tristeza e sentimento.

Canta seriema, canta!
Tenha pena, tenha dó
do poeta que — na infância —
brincava pelo arredor.
Volta seriema, canta
esse canto que me encanta!

Ari Donato / Guanambi / 2026

Seu segredo

A Rose Fernandes

Que mágica traz você
escondida em suas mãos,
com a qual domina cores;
retrata nuvens e mares?

Quem lhe deu tal aptidão?
Diga-me, que divindade
lançou-lhe do alto esse dom?

Saberão as aves no céu
ou os peixes — na infinidade
sua — nos cinco oceanos?
Não, certamente que não!

Nem a centenária árvore —
vista que tanto lhe inspira —
descobriu esse segredo.

Anos à beira da estrada,
seus galhos, folhas e troncos
louvam você quando passa;
ouvem suas confissões…

Mas não sabem da furtiva
arte — na ponta dos dedos —
que você tem em segredo!

Ari Donato / Salvador / 2026