Canta seriema

Na foto de Márcia Costa, seriema em condomínio residencial, na cidade de Guanambi – BA

Canta seriema! Canta
esse teu canto que encanta!
Esse canto inconfundível,
de glissando e percussivo,
imponente — lá do campo!
Canta seriema, canta!

Que me dizes?! Impossível
ressoar, além dos montes,
teu lamento musical?
Tua estridente cantiga
não mais tine no horizonte —
como antes — da Caatinga?

Por que se devastou tudo,
não se pode mais ouvir,
no começo da manhã
ou final de tardes belas,
teu canto de anfitriã —
que hoje toco à viola!

Pelas minguadas pastagens,
matas ralas e banguelas,
teu cantar — acelerado —
soa qual uma risada.
Inda que seja lamento
de tristeza e sentimento.

Canta seriema, canta!
Tenha pena, tenha dó
do poeta que — na infância —
brincava pelo arredor.
Volta seriema, canta
esse canto que me encanta!

Ari Donato / Guanambi / 2026

Seu segredo

A Rose Fernandes

Que mágica traz você
escondida em suas mãos,
com a qual domina cores;
retrata nuvens e mares?

Quem lhe deu tal aptidão?
Diga-me, que divindade
lançou-lhe do alto esse dom?

Saberão as aves no céu
ou os peixes — na infinidade
sua — nos cinco oceanos?
Não, certamente que não!

Nem a centenária árvore —
vista que tanto lhe inspira —
descobriu esse segredo.

Anos à beira da estrada,
seus galhos, folhas e troncos
louvam você quando passa;
ouvem suas confissões…

Mas não sabem da furtiva
arte — na ponta dos dedos —
que você tem em segredo!

Ari Donato / Salvador / 2026

Guanambi, a cidade beija-flor!

Vista parcial da cidade de Guanambi, no suodeste da Bahia | Foto Ari Donato

O município de Guanambi, no sudoeste da Bahia, limita-se com os de Caetité, Igaporã, Pindaí, Candiba, Palmas de Monte Alto e Sebastião Laranjeiras. Seu clima é basicamente semiárido, com temperatura média anual de 22,6ºC e período de chuva entre os meses de novembro e fevereiro. Pela Lei Provincial n.º 1.779, de 23 de junho de 1880, foi criado, no município de Monte Alto, o distrito de Bela-Flor, com sede no arraial de Beija-Flor.

O atual município foi criado pela Lei Estadual nº 1.364, de 14 de agosto de 1919, desmembrado do de Monte Alto. A instalação ocorreu no dia 1º de janeiro de 1920, quando tomou posse como primeiro intendente o coronel Balbino Gabriel de Araújo Cajahyba. No mesmo dia, em acordo com a lei que criou o município, o intendente decretou a Lei Orçamentária para o exercício de 1920, que orçou a receita em 12 contos de réis.

BEIJA-FLOR; BEIJA-FLOR!

A história da formação do município de Guanambi liga as denominações Bela-Flor e Beija-Flor a uma tradicional festa católica que havia no arraial para homenagear Santo Antônio, padroeiro do local. Durante a cerimônia ocorria uma sessão de beijos e mimos à imagem do padroeiro, promovida por uma menina chamada Flor (que teria o nome de Florinda), filha da devota Bela (provavelmente Belarmina).

A maioria dos que assistiam à cerimônia era formada de jogadores de cartas e desocupados. No auge do folguedo, eles gritavam: “Beija, flô; beija flô”. Com o tempo, as preparações para esses festejos eram, no dizer dos participantes, para “o beija flô na casa de Bela”.

O historiador, poeta e ex-prefeito de Guanambi, Domingos Antônio Teixeira (1903-1976), não endossa esta versão. Em seu livro Respingos Históricos (Salvador, 1991), defende que o nome Beija-Flor, dado ao arraial, veio da pequena ave da família dos troquilídeos, da espécie dos colibris. Segundo o historiador, o terreno de vazante, contíguo ao centro do arraial, era coberto por flores silvestres, o que atraía quantidade de beija-flores a maior parte do ano.

A Lei Estadual nº 1.364, de 14 de agosto de 1919, que criou o município, determinou que os limites seriam os do antigo distrito de Bela-Flor, mas não os especificava. A administração municipal de Monte Alto havia criado o distrito de Lagoa da Espera, reduzindo a área do distrito de Bela-Flor e alterando os limites interdistritais.

Todavia importantes faixas territoriais de municípios fronteiriços foram absorvidas por Guanambi quando da fixação dos limites dos seus distritos, a exemplo de Lagoa da Espera, que teve o nome mudado para Itaguaçu, depois Mutãs, em razão de já haver, no estado do Espírito Santo, uma localidade com a denominação de Itaguaçu. Mutãs vem do tupi mutá, palanque ou assento no mato, onde o caçador espreita a caça.

No dia 8 de janeiro de 1920, o intendente Balbino Cajahyba sancionou a Lei nº 2, votada pelo Conselho Municipal, que criou os distritos de Paz de Guanambi, na sede, e o de Mocambo. Mas a lei somente chegou ao conhecimento público após referendada pela Lei Estadual nº 1.589, de 28 de agosto de 1922. Mocambo, mais tarde, em 1º de janeiro de 1945, por força de lei federal que definiu um novo quadro territorial nacional, recebeu o nome de Candiba. Sua autonomia política e administrativa viria em 1962.

FAMÍLIAS DESBRAVADORAS

As primeiras informações históricas acerca do surgimento do município de Guanambi remontam ao século XIX, com a doação de uma gleba, por Joaquim Dias Guimarães, para a construção de uma capela para Santo Antônio, tomado como padroeiro local.

Segundo relato de antigos moradores, o povoamento começou por volta de 1870, nas margens do rio Carnaíba de Dentro. E cresceu por força da abnegação de desbravadores, a exemplo dos Pereiras; Costas; Castros; Dias; e Guimarães, que se espalharam por toda a região do Gentio (atual Ceraíma), Matina, Riacho de Santana e Igaporã, intensificando a exploração agrícola e a pecuária.

Só em 1880, pela Lei Provincial nº 1.779, de 23 de junho, é que foi criado o distrito de Paz de Bela-Flor, ligado ao município de Monte Alto, e com sede no arraial de Beija-Flor. Embora oficialmente tivesse a denominação de Bela-Flor, por muito tempo persistiu o nome de Beija-Flor, com o qual se tornou conhecido.

A criação do município foi em 14 de agosto de 1919, desmembrado do de Monte Alto, com instalação a 1º de janeiro de 1920. Até o final dos anos 1980, o dia da instalação do município era celebrado como data cívica maior, sendo substituído pelo 14 de agosto, data da sua criação. A correção ocorreu no final dos anos 1990, numa iniciativa da Câmara de Vereadores, tendo à frente o vereador Paulo Costa Pereira, que mostrou o erro histórico e corrigiu o Dia da Cidade.

Guanambi tem uma área geográfica relativamente pequena: 1.272 quilômetros quadrados, dos quais cerca de 68 km2 estão no perímetro urbano e o restante em zona rural. Sua população, conforme estimativa do IBGE (2025), ultrapassa os 93 mil habitantes. Além da sede urbana, o município possui três distritos principais, a saber, Ceraíma, Morrinhos e Mutãs.

OUTRA HISTÓRIA

Na história de Guanambi destaca-se a construção do açude de Ceraíma, com espelho d’água de 58 milhões de metros cúbicos de água. Foi, por muito tempo, a principal fonte de abastecimento de água potável da cidade, depois substituída pelo rio São Francisco.

Segundo narração do historiador Domingos Antônio Teixeira no livro Respingos Históricos (p. 132), no dia 22 de julho de 1948 começaram os trabalhos preliminares para construção do açude, pelo Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (Dnocs). A primeira etapa da barragem foi concluída em 1958, mas as obras foram paralisadas pela empresa construtora. Com as chuvas de janeiro de 1959, a água começou a ser represada, encobrindo a vila de Ceraíma (uma nova foi construída nas margens do lago).

No dia 2 de fevereiro de 1960, uma enchente do rio Carnaíba de Dentro, afluente do Rio das Rãs, um tributário do São Francisco, rompeu a barragem, às 17h30, com prejuízos materiais, e duas mortes humanas (um homem e uma mulher) na localidade de Pau de Colher, segundo o mesmo historiador. A reconstrução do açude começou em março de 1964, por decisão do ministro de Obras Públicas, marechal Juarez Távora, que esteve na inauguração, em março de 1966.

Como potencial hidrográfico, o município de Guanambi tem ainda o rio Carnaíba de Dentro e os menores, Rega Pé, Belém, Poço do Magro e Muquém, todos temporários, que correm durante as chuvas. Dentre os açudes destaca-se, também, o do Poço do Magro.