O amargo sabor da solidão…

Foto ilustração: ari donato | janeiro | 2020

No último dia 31 de agosto de 2026, completaram-se 54 anos da minha vinda para esta amada Cidade do Salvador, que me recebeu e moldou minha vida, meu caráter. É um tempo quase três vezes superior ao que vivi em Guanambi — minha cidade natal, de onde saí, na tarde do dia 30 de agosto de 1972, aos 19 anos de idade. Duas cidades, dois colos diferentes; dois lares, que me abraçam com afetos desiguais; dois leitos, onde durmo sonos distintos.

Ainda me lembro daquelas duas ocasiões: a partida, tendo à frente a expectativa do desconhecido, e a chegada, com o passado espiando na curva do caminho. Quanta angústia, ao ver a caatinga sumir na poeira da estrada de barro; como foram aflitas aquelas 15 horas em um bravio ônibus da Novo Horizonte, novata em suas linhas de ligação do sertão com o litoral.

Cheguei em Salvador na madrugada de uma quinta-feira, mas não vi a entrada da cidade; dormira logo que o ônibus passara por Feira de Santana, para acordar na velha rodoviária das Sete Portas, que continuaria a servir de ponto de embarque e desembarque de passageiros na capital por mais dois anos, até ser substituída pelo terminal do Iguatemi — recentemente desativado e a operação transferida para a nova estação, em Águas Claras.

Desci do ônibus em meio a carregadores de bagagem; vendedores de mingau, café, pastel e refresco; cachorros vagueando. Peguei minha mala, juntei a coragem às instruções recebidas de amigos — que vieram antes de mim — e dirigi-me ao ponto de táxi. Eu tinha o endereço na ponta da língua, recitado para mim mesmo dezenas de vezes: conjunto residencial Santa Madalena, na Avenida Vasco da Gama, no Rio Vermelho.

Chovia uma chuvinha fina e eu sentia frio. Era meu organismo reagindo ao clima. Afinal, umidade do ar de 70% era coisa que conhecia dos livros primários de Geografia da educadora Olga Pereira Mettig, baiana de Cachoeira. Estava acostumado ao ar seco de Guanambi — onde o vapor d’água desce a menos de 10% do ar e sangramentos pelo nariz é comum. Na verdade, a baixa umidade resseca a pele nasal interna, a pessoa coça e daí pequenos vasos sanguíneos se rompem. Minha sina não era menos penosa: vivia com as amídalas inflamadas — o ar úmido de Salvador livrou-me desse sofrimento.

A visão que eu tinha de cidade grande era a de Itabuna, desde que lá estivera, em 1970, como presidente do Centro Cultural Assis Chateaubriand, do Colégio Estadual Governador Luís Viana Filho. Eu fora à Academia Cultural dos Estudantes do Sul da Bahia, a histórica Acesb, para emissão das pioneiras carteiras de identidade estudantil de Guanambi.

Nos primeiros dias em Salvador, não só a descompensação nos mecanismos de regulação do equilíbrio fisiológico me afetou, também o impacto cultural. Certa vez, um amigo meu resumiu tudo como “choque térmico” cultural e emocional, coisa que só vim a perceber anos depois, quando muitos dos fatos ocorridos haviam se esvaído da minha mente. Lembro-me de um outdoor, nos arredores do Dique do Tororó, a anunciar o filme “Um farol no fim do mundo”, de 1971, com Kirk Douglas, Yul Brynner e Samantha Eggar.

O cinema sempre foi a minha lanterna mágica. Assim que cheguei a Salvador, o Cine Tupi, à entrada da Baixa dos Sapateiros, exibia o melodrama musical brasileiro “Coração de luto”, de 1966, com o cantor popular Teixeirinha. “Resistir quem há-de?” — perguntaria o poeta Luís Guimarães Júnior (1845-1898) no meu lugar. Entrei em um taxi e fui ao cinema, sob gracejos da minha tia Arlete Novaes Oton. Ela e seu marido, o meu tio Antônio Oton Neto (1939-2003), trouxeram-me para Salvador.

No mesmo Tupi, assisti, petrificado, diante de uma imensa tela, a “Inferno no Pacífico”, de 1968, com Lee Marvin e Toshiro Mifune. A luta pela sobrevivência de um oficial da Marinha japonesa e um fuzileiro norte-americano, isolados em uma ilha do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), agravada com a limitação imposta na comunicação pelo idioma e a cultura de cada um, muito me comoveu, de maneira que me vi naquela situação, distante dos que conheciam meus hábitos, meus costumes, minhas necessidades. Por mais que falasse a mesma língua dos que me rodeavam, pouco me comunicava com eles.

Sentia-me isolado na nova cidade. Eu era uma válvula solta em meio àquele emaranhado de peças humanas, pois se a linguagem é o método mais completo de comunicação entre os homens, e se se mostra como fato social, para mim perdera tal função. Seriam necessárias a emissão e a pronta recepção da mensagem, e certamente isso não estava ocorrendo, daí meu desespero, ao perceber a enorme ilha no Atlântico com que Salvador se apresentava para mim.

Nas ruas, especialmente da área do Comércio, na cidade Baixa, onde meu tio trabalhava — chefiava o setor de cadastro do Banco de Crédito Real de Minas Gerais —, eu buscava contatos com pessoas, como forma de fugir do isolamento social, da ausência da comunicação, até mesmo ouvir a minha própria voz, em meio ao arquejar da cidade. Às vezes perguntava a um ou outro transeunte sobre as horas, pedia informação a respeito do trajeto de um ônibus ou sobre determinada rua para em seguida pronunciar, pausadamente: “Obrigado!”

Se a agonia daqueles dois soldados esteve reduzida, tecnicamente, a pouco mais de uma hora e meia, meu dilema durou bem mais. Coisa de dois ou três meses para aparecerem os letreiros finais.

Passados 54 anos, obrigado Salvador por me abraçar;
Obrigado Guanambi por me entender;
Obrigado aos que andaram comigo ao longo desse — com o passar dos anos, delicioso — tempo.
Rendo graças ao meu Deus!

Canta seriema

Na foto de Márcia Costa, seriema em condomínio residencial, na cidade de Guanambi – BA

Canta seriema! Canta
esse teu canto que encanta!
Esse canto inconfundível,
de glissando e percussivo,
imponente — lá do campo!
Canta seriema, canta!

Que me dizes?! Impossível
ressoar, além dos montes,
teu lamento musical?
Tua estridente cantiga
não mais tine no horizonte —
como antes — da Caatinga?

Por que se devastou tudo,
não se pode mais ouvir,
no começo da manhã
ou final de tardes belas,
teu canto de anfitriã —
que hoje toco à viola!

Pelas minguadas pastagens,
matas ralas e banguelas,
teu cantar — acelerado —
soa qual uma risada.
Inda que seja lamento
de tristeza e sentimento.

Canta seriema, canta!
Tenha pena, tenha dó
do poeta que — na infância —
brincava pelo arredor.
Volta seriema, canta
esse canto que me encanta!

Ari Donato / Guanambi / 2026

Seu segredo

A Rose Fernandes

Que mágica traz você
escondida em suas mãos,
com a qual domina cores;
retrata nuvens e mares?

Quem lhe deu tal aptidão?
Diga-me, que divindade
lançou-lhe do alto esse dom?

Saberão as aves no céu
ou os peixes — na infinidade
sua — nos cinco oceanos?
Não, certamente que não!

Nem a centenária árvore —
vista que tanto lhe inspira —
descobriu esse segredo.

Anos à beira da estrada,
seus galhos, folhas e troncos
louvam você quando passa;
ouvem suas confissões…

Mas não sabem da furtiva
arte — na ponta dos dedos —
que você tem em segredo!

Ari Donato / Salvador / 2026

Guanambi, a cidade beija-flor!

Vista parcial da cidade de Guanambi, no suodeste da Bahia | Foto Ari Donato

O município de Guanambi, no sudoeste da Bahia, limita-se com os de Caetité, Igaporã, Pindaí, Candiba, Palmas de Monte Alto e Sebastião Laranjeiras. Seu clima é basicamente semiárido, com temperatura média anual de 22,6ºC e período de chuva entre os meses de novembro e fevereiro. Pela Lei Provincial n.º 1.779, de 23 de junho de 1880, foi criado, no município de Monte Alto, o distrito de Bela-Flor, com sede no arraial de Beija-Flor.

O atual município foi criado pela Lei Estadual nº 1.364, de 14 de agosto de 1919, desmembrado do de Monte Alto. A instalação ocorreu no dia 1º de janeiro de 1920, quando tomou posse como primeiro intendente o coronel Balbino Gabriel de Araújo Cajahyba. No mesmo dia, em acordo com a lei que criou o município, o intendente decretou a Lei Orçamentária para o exercício de 1920, que orçou a receita em 12 contos de réis.

BEIJA-FLOR; BEIJA-FLOR!

A história da formação do município de Guanambi liga as denominações Bela-Flor e Beija-Flor a uma tradicional festa católica que havia no arraial para homenagear Santo Antônio, padroeiro do local. Durante a cerimônia ocorria uma sessão de beijos e mimos à imagem do padroeiro, promovida por uma menina chamada Flor (que teria o nome de Florinda), filha da devota Bela (provavelmente Belarmina).

A maioria dos que assistiam à cerimônia era formada de jogadores de cartas e desocupados. No auge do folguedo, eles gritavam: “Beija, flô; beija flô”. Com o tempo, as preparações para esses festejos eram, no dizer dos participantes, para “o beija flô na casa de Bela”.

O historiador, poeta e ex-prefeito de Guanambi, Domingos Antônio Teixeira (1903-1976), não endossa esta versão. Em seu livro Respingos Históricos (Salvador, 1991), defende que o nome Beija-Flor, dado ao arraial, veio da pequena ave da família dos troquilídeos, da espécie dos colibris. Segundo o historiador, o terreno de vazante, contíguo ao centro do arraial, era coberto por flores silvestres, o que atraía quantidade de beija-flores a maior parte do ano.

A Lei Estadual nº 1.364, de 14 de agosto de 1919, que criou o município, determinou que os limites seriam os do antigo distrito de Bela-Flor, mas não os especificava. A administração municipal de Monte Alto havia criado o distrito de Lagoa da Espera, reduzindo a área do distrito de Bela-Flor e alterando os limites interdistritais.

Todavia importantes faixas territoriais de municípios fronteiriços foram absorvidas por Guanambi quando da fixação dos limites dos seus distritos, a exemplo de Lagoa da Espera, que teve o nome mudado para Itaguaçu, depois Mutãs, em razão de já haver, no estado do Espírito Santo, uma localidade com a denominação de Itaguaçu. Mutãs vem do tupi mutá, palanque ou assento no mato, onde o caçador espreita a caça.

No dia 8 de janeiro de 1920, o intendente Balbino Cajahyba sancionou a Lei nº 2, votada pelo Conselho Municipal, que criou os distritos de Paz de Guanambi, na sede, e o de Mocambo. Mas a lei somente chegou ao conhecimento público após referendada pela Lei Estadual nº 1.589, de 28 de agosto de 1922. Mocambo, mais tarde, em 1º de janeiro de 1945, por força de lei federal que definiu um novo quadro territorial nacional, recebeu o nome de Candiba. Sua autonomia política e administrativa viria em 1962.

FAMÍLIAS DESBRAVADORAS

As primeiras informações históricas acerca do surgimento do município de Guanambi remontam ao século XIX, com a doação de uma gleba, por Joaquim Dias Guimarães, para a construção de uma capela para Santo Antônio, tomado como padroeiro local.

Segundo relato de antigos moradores, o povoamento começou por volta de 1870, nas margens do rio Carnaíba de Dentro. E cresceu por força da abnegação de desbravadores, a exemplo dos Pereiras; Costas; Castros; Dias; e Guimarães, que se espalharam por toda a região do Gentio (atual Ceraíma), Matina, Riacho de Santana e Igaporã, intensificando a exploração agrícola e a pecuária.

Só em 1880, pela Lei Provincial nº 1.779, de 23 de junho, é que foi criado o distrito de Paz de Bela-Flor, ligado ao município de Monte Alto, e com sede no arraial de Beija-Flor. Embora oficialmente tivesse a denominação de Bela-Flor, por muito tempo persistiu o nome de Beija-Flor, com o qual se tornou conhecido.

A criação do município foi em 14 de agosto de 1919, desmembrado do de Monte Alto, com instalação a 1º de janeiro de 1920. Até o final dos anos 1980, o dia da instalação do município era celebrado como data cívica maior, sendo substituído pelo 14 de agosto, data da sua criação. A correção ocorreu no final dos anos 1990, numa iniciativa da Câmara de Vereadores, tendo à frente o vereador Paulo Costa Pereira, que mostrou o erro histórico e corrigiu o Dia da Cidade.

Guanambi tem uma área geográfica relativamente pequena: 1.272 quilômetros quadrados, dos quais cerca de 68 km2 estão no perímetro urbano e o restante em zona rural. Sua população, conforme estimativa do IBGE (2025), ultrapassa os 93 mil habitantes. Além da sede urbana, o município possui três distritos principais, a saber, Ceraíma, Morrinhos e Mutãs.

OUTRA HISTÓRIA

Na história de Guanambi destaca-se a construção do açude de Ceraíma, com espelho d’água de 58 milhões de metros cúbicos de água. Foi, por muito tempo, a principal fonte de abastecimento de água potável da cidade, depois substituída pelo rio São Francisco.

Segundo narração do historiador Domingos Antônio Teixeira no livro Respingos Históricos (p. 132), no dia 22 de julho de 1948 começaram os trabalhos preliminares para construção do açude, pelo Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (Dnocs). A primeira etapa da barragem foi concluída em 1958, mas as obras foram paralisadas pela empresa construtora. Com as chuvas de janeiro de 1959, a água começou a ser represada, encobrindo a vila de Ceraíma (uma nova foi construída nas margens do lago).

No dia 2 de fevereiro de 1960, uma enchente do rio Carnaíba de Dentro, afluente do Rio das Rãs, um tributário do São Francisco, rompeu a barragem, às 17h30, com prejuízos materiais, e duas mortes humanas (um homem e uma mulher) na localidade de Pau de Colher, segundo o mesmo historiador. A reconstrução do açude começou em março de 1964, por decisão do ministro de Obras Públicas, marechal Juarez Távora, que esteve na inauguração, em março de 1966.

Como potencial hidrográfico, o município de Guanambi tem ainda o rio Carnaíba de Dentro e os menores, Rega Pé, Belém, Poço do Magro e Muquém, todos temporários, que correm durante as chuvas. Dentre os açudes destaca-se, também, o do Poço do Magro.