Lino Teixeira, nove vezes vereador

A última das demoradas conversas que eu mantive com meu tio Lino Teixeira — ex-vereador de Guanambi, a quem eu chamava de Sô — ocorreu em abril de 2022, quando o Ministério da Saúde declarava o fim da Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (Espin), causada pela pandemia da Covid-19. Foi praticamente a última das nossas conversas, pois no dia 29 de setembro de 2023 ele viria a falecer, aos 95 anos de idade.

À época, um clima carregado antecedia as eleições presidenciais, e tratamos disso. Eu me vali da larga experiência política do meu tio, iniciada em 1951, pelo PSD, e ampliada em outros partidos ao longo dos anos.

“Ari — ele me olhava com olhar paternal, era o irmão mais velho da minha mãe —, os eleitores do Dr. Fernandes, chamados de caititus, e os do coronel Balbino Cajaíba, de morcegos, dividiram a política de Guanambi ao meio nos anos 1920, 1930; depois vieram, entre 1960 e 1980, os jacus, do Dr. José Humberto Nunes, e os carcarás, que seguiam José Neves Teixeira (Binha) e Nilo Coelho. Uma dissidência terminou separando politicamente esses dois líderes, de modo que Binha juntou-se aos jacus e Nilo Coelho permaneceu com os carcarás. Nos anos seguintes as rixas diminuíram, quase acabaram, mas tudo voltou, com brigas desnecessárias, pois política é feita de conversa, de entendimento, na busca do bem de todos.” — Eu ouvia atentamente.

Lino Teixeira

Eu gostava de conversar com meu tio Sô, e falávamos sobre coisas da nossa família e da história de Guanambi, mais ainda da política, afinal ele exercera nove vezes o mandato de vereador nos períodos legislativos de 1951 a 1989. “Somei 38 anos e nove meses como vereador” — narrava, com ar sério.

Quando falava dessa fase histórica da política, o que muito me agradava, ele destacava que exercera os 25 primeiros anos sem remuneração. Também os demais edis não recebiam subsídio — que é a denominação do vencimento do vereador. Entre eles estiveram Etelvino Pereira Donato, Gileno Pereira Donato, Estelino Pereira Donato, meus primos, e Ezequias Manoel Cotrim, um outro tio meu. O historiador Dário Teixeira Cotrim, no livro Guanambi, aspectos históricos e genealógicos (Belo Horizonte, 1994), cita Lino Teixeira, com total acerto, como um dos primeiros líderes políticos do município.

Nas nossas conversas, enquanto eu, recém-formado jornalista pela Universidade Federal da Bahia, fazia perguntas e mais perguntas, meu tio picava fumo de rolo, para enrolar seu cigarro. Em meio a um riso e outro, respondia a tudo com paciência, vez por outra corrigido pela esposa, minha tia Maria Joaquina da Silva Teixeira — um nome nobre, para o leve apelido de Zizi.

NASCEU NO GENTIO, ATUAL CERAÍMA

Lino Teixeira nasceu no atual distrito de Ceraíma, no município de Guanambi, a 2 de fevereiro de 1928, quando o local tinha o nome de Gentio. A data do seu nascimento, por si, traz a força das águas, a força de Iemanjá, a “rainha do mar”, das religiões de matriz africana; a Nossa Senhora dos Navegantes, do catolicismo. Seus pais foram Domingos Antônio Teixeira e Maria Alice Cassimiro Teixeira — ambos meus avós maternos.

Domingos Teixeira, chamado Teixeirinha, exercera a chefia do Poder Executivo municipal em três ocasiões: as duas primeiras (de 12 de agosto de1943 a 11 de outubro de 1944; de 28 de dezembro de 1945 a 20 de maio de 1946) na interinidade e a terceira (31 de maio de 1947 a 2 de janeiro de 1948) por nomeação.

“Enquanto eu era vereador, trabalhava na roça e no comércio, para sustentar minha família, de oito filhos” — dizia, pitando seu cigarro, de onde saía uma fina e branca fumaça de cheiro forte e característico. Começou a trabalhar aos sete anos de idade, como ajudante do pai, na lavoura doméstica; aos nove anos já administrava a plantação, especialmente de arroz. Aos doze anos deixou o Gentio e foi morar com os avós paternos em Malhada, município baiano à margem direita do Médio São Francisco.

Seu filho, o historiador José Bonifácio Teixeira, diz que durante o período em que foi vereador, especialmente até 1972, o pai tinha como fontes de renda uma loja de tecidos e uma pequena produção rural no distrito de Morrinhos. Ele exerceu essas atividades de agricultor e comerciante até ingressar no serviço público.

AGRICULTOR EM MALHADA

Pouca coisa eu sei a respeito do meu bisavô, major Antônio Othon Teixeira, avô de Lino Teixeira — o que sei, ouvi, ainda criança, do meu avô Teixeirinha e, mais tarde, do meu tio. “Três meses depois de me mudar para Malhada meu avô Antônio Othon faleceu, então passei a tomar conta da fazenda dele, tocando a roça por alguns meses, até me mudar para Guanambi, no início de 1940, com minha avó Mariana da Silva Teixeira, quando fui montar meu próprio comércio em Ceraíma, dividindo as atividades entre as duas cidades, até 1962, ano em que deixei Ceraíma e fui com minha família para Morrinhos, e aí ficamos até 1972, quando eu me fixei, definitivamente, em Guanambi.” Nesta data Lino Teixeira ingressou no serviço público como guarda sanitário do Grupo Executivo de Erradicação da Febre Aftosa na Bahia, o conhecido Gerfab, criado em 1968 pelo Governo da Bahia para a erradicação da febra aftosa no estado.

VIDA POLÍTICA

Meu tio gostava de dizer que ingressara na vida política por indicação do líder político Generaldo Souza Teixeira — avô da sua esposa — e do chefe político José de Castro Bastos, o Dr. Juca — avô da deputada Ivana Bastos, filha do ex-deputado Fernando Borges Bastos — para representar, na Câmara Municipal, a população dos distritos de Morrinhos e Ceraíma, onde residiu por muito tempo com sua família.

Medalha Prisco Viana

Lino Teixeira iniciou sua carreira política pelo agora extinto Partido Social Democrático (PSD), fundado em 1945, em apoio aos governos de Eurico Gaspar Dutra (1946-1951) e Juscelino Kubitschek (1956-1961 — sem nenhum vínculo com a atual sigla PSD, criada em 2011.

Foi por aquele histórico PSD que Lino Teixeira elegeu-se para as duas primeiras legislaturas, de 1951 a 1954, com 234 votos, e de 1955 a 1958, com 475 votos. Na legislatura seguinte concorreu pelo Partido Libertador (PL) — fundado em 1928 e extinto em 1937, reaberto em 1945 e novamente extinto, em 1965 — que nada tem em comum com o atual PL (Partido Liberal) fundado em 1985.

Por aquele PL anterior, Lino Teixeira elegeu-se para o período de 1959 a 1962, voltando a ser eleito para novo mandato, de 1963 a 1966, pela UDN (União Democrática Brasileira), com 480 votos. Para o mandato de 1967 a 1970, pela Arena (Aliança Renovadora Nacional), com 630 votos; os períodos de 1971 a 1972, com 448 votos; de 1973 a 1976, com 602 votos; e de 1977 a 1982, com 624 votos, ainda pela Arena.

A 15 de novembro de 1982, já então filiado ao Partido Democrático Social (PDS), sucessor da Arena, elegeu-se para a nona, e sua última legislatura, com 1.004 votos.

FUNÇÃO DO PARLAMENTAR

Quando nossa conversa descambava para atividades parlamentares, meu tio desviava o assunto, e dizia que não era coisa para ele falar, “sim os outros”. O certo é que ele defendeu obras fundamentais para o desenvolvimento econômico e social de Guanambi. Pode-se citar o projeto de lei, de 1963, considerando de utilidade pública para fins de desapropriação área do terreno da Cova de Leocádia; apoio à solicitação de empréstimo para a construção da sede da Prefeitura Municipal, na rua Dr. José Fernandes, cujo prédio depois foi leiloado, com seu voto contra. Trabalhou pela construção de igrejas na Vila de Nova Ceraíma e no povoado de Morrinhos; participou da luta pela estadualização do Ginásio de Guanambi, sociedade particular que passou a ser o Colégio Estadual Luís Viana Filho; empenhou-se pela entrada em funcionamento, em 1975, do Hospital Santo Antônio, construído pela Associação dos Amigos de Guanambi e a Comissão do Vale do São Franscisco; e pela construção do fórum da Comarca.

O reconhecimento pela Câmara Municipal de Vereadores de Guanambi da militância política do vereador Lino Teixeira, em seus nove mandatos, resultou em atribuir seu nome ao auditório da Casa, de modo que passou a ser chamado Auditório Lino Teixeira; e a denominação da rua Vereador Lino Teixeira, no bairro Paraíso. Quando das comemorações pelo Centenário de Guanambi, em 2019, a Câmara Municipal concedeu-lhe a Medalha Prisco Viana (Mérito Legislativo 2018).

  • A avaliação de um parlamentar não necessariamente está ligada a quantos cargos assumiu, a quantas vezes presidiu a instituição a que integra, a quantos títulos ou medalhas recebeu, nem mesmo a quantos projetos apresentou, mas sim em quantas causas do interesse da comunidade ele votou a favor. A defesa do interesse comum é a função maior do parlamentar — não exatamente com estas palavras nem exatamente desta forma, mas esta definição eu ouvi do pai do meu tio Lino Teixeira, que vem a ser meu avô Domingos Antônio Teixeira (Teixeirinha).

O médico humanista José Humberto Nunes

Em abril deste ano de 2026, no dia 21, completaram-se 101 anos do nascimento de José Humberto Moreira Andrade Nunes, por três vezes prefeito da cidade de Guanambi, no interior da Bahia. Filho único do casal José Francisco Nunes e Idalice Moreira Andrade Nunes, ele nasceu em Salvador, no dia 21 de abril de 1925; faleceu na madrugada do dia 17 de abril de 2001, na mesma cidade, e foi sepultado no Cemitério Campo Santo, cercado de parentes, amigos e dezenas de guanambienses.

Quatro dias antes de completar 74 anos de idade, o então médico aposentado e ex-prefeito José Humberto – ou Zomberto, no falar apocopado do homem do campo – faleceu na UTI do Hospital Português, em Salvador. Foi a perda de um dos mais expressivos profissionais e homens públicos que Guanambi já teve em toda a sua história, desde que o município fora criado, em 1919.

MÉDICO HUMANISTA

José Humberto chegou a Guanambi no início dos anos 1950, recém-formado em Medicina pela Universidade Federal da Bahia, com os pais Sr. Nunes e Dona Idalice. O seu pai, um empreendedor português, foi proprietário da primeira banca de revistas na cidade, mas a formação humanista que deu ao filho foi o maior legado que transferiu para a cidade.

José Humberto Nunes

Atendendo a pessoas carentes das zonas urbanas e rurais de cerca de 10 municípios da região, o recém-formado médico destacou-se por combater, não apenas a doença, mas, na medida do possível, suas causas.

Costumava responder a quem lhe pedia que aviasse “um fortificante ou uma vitamina”, que tudo de que precisava “estava na quitanda da esquina: banana, manga, laranja, tomate, ovos, abóbora”. Aos mais necessitados, ele dava os medicamentos vitais.
Amado pelo povo, foi eleito prefeito em três ocasiões. Sua primeira eleição (1955–1959) foi a quinta ocorrida até então pelo voto direto; até então o município tivera a maioria de seus prefeitos nomeados. As outras foram nos períodos de 1963 a 1967 e 1971 a 1973.
Administrando um município recém-emancipado e de poucos recursos, distante do centro do poder estadual e padecendo de uma comunicação eficiente, José Humberto preferiu investir no social, voltar para um combate mais eficaz às endemias. Suas três administrações foram marcantes neste sentido.

Em 1967, ao encerrar o segundo mandato, apoiou seu secretário municipal de Administração, Jonas Rodrigues da Silva, que foi eleito prefeito (1967 a 1971), mas na eleição seguinte voltou a se candidatar e foi eleito para o terceiro mandato, que encerrou em 1973, deixando, como sucessor, novamente, seu secretário Jonas Rodrigues da Silva.

Em Guanambi, onde viveu por quase 30 anos, José Humberto trabalhou como médico pela Comissão do Vale do São Francisco (CVSF), depois Superintendência do Vale do São Francisco (Suvale) e, atualmente, Companhia do Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Codevasf), e pela Secretaria de Saúde do Estado. No final de 1976, transferiu-se para Salvador e trabalhou no Serviço Médico da Universidade Federal da Bahia por muitos anos, tendo sido seu diretor durante quase uma década.

HUMILDE E DEDICADO

Quando do seu sepultamento, sua esposa, Dona Maria de Lourdes Nunes, realçou as qualidades do marido: “Médico competente, humilde e dedicado, político honesto, leal e digno, extraordinária figura humana, que deixou aos seus um legado de honra, bondade, força e amor.”

Seu filho Sílvio Nunes, 62 anos, conta que, ainda criança, na residência da família, em Guanambi, ele era acordado frequentemente com pessoas batendo à janela do quarto, que dava para uma praça (José Ferreira), chamando seu pai para prestar um ou outro atendimento médico. “Eu acordava, levantava-me e ia até o quarto do meu pai, para chamá-lo, e isso era frequente!” – recorda o mais novo dos cinco irmãos: José Francisco (Guiguiu), José Humberto (Bebeto), Idalice e Maria Elvira.

Este texto não tem a pretensão de trazer algum fato histórico desconhecido do público nem a responsabilidade de levantar questões para debate. A intenção é trazer à memória figuras guanambienses; reverência e homenagem cabem às instituições locais criadas para tal função.