Este texto foi alterado e ampliado com informações prestadas por familiares da professora Enedina Costa de Macêdo, que considerei de grande valia e que, juntadas às anteriores, muito enriquecem a publicação.

Com esta palavra — Destemida! — Kátia das Graças Macêdo Bonfim definiu a sua mãe, professora Enedina Costa de Macêdo, que completaria 109 anos no dia 24 de outubro próximo; faleceu a 27 de agosto de 2017, dois meses antes de chegar aos 100 anos. Corajosa, valente, de muito denodo; é como o dicionário da língua portuguesa define a pessoa destemida, e desta forma era a professora Enedina — sertaneja nascida a 24 de outubro de 1917, na fazenda Laranjo, atualmente Ceraíma, numa época em que a mulher vivia em condição de relativa incapacidade civil.
Seus pais foram Petronilha Petrina Pereira e Alcebíades Pereira da Costa, que após a filha concluir os estudos iniciais, em Guanambi, enviaram-na para Caetité, a cerca de 40 quilômetros, onde foi diplomada em Magistério pela Escola Normal, em 11 de dezembro de 1939. Duas décadas antes, no exato ano em que nascera, o então presidente Wenceslau Brás sancionara o Código Civil Brasileiro — que vigoraria até 2003. Por este estatuto, a mulher, em especial a casada, não possuía autonomia jurídica para gerir sua própria vida: dependia da autorização do marido para diversos atos da vida civil. Estava equiparada ao menor de idade (entre 16 e 21 anos) e ao indígena tutelado. Precisava da permissão do marido para, dentre outras situações, trabalhar fora de casa, viajar ou receber herança.
A mulher brasileira permaneceu nesta circunstância até 1962, quando entrou em vigor a Lei nº 4.121, chamada de Estatuto da Mulher Casada, que lhe assegurou a plena capacidade civil e o direito de ter bens próprios. Por essa época, Enedina já se encontrava casada — casara-se, em janeiro de 1950, com Antônio Neves de Macêdo. “Em toda a sua vida, (minha) mãe jamais desistiu de algo que desejasse realizar; ela sempre foi assim, desde que iniciou os estudos, em Guanambi, e mais ainda em Caetité, onde encontrou ambiente propício para defender o direito da mulher.” — relata Kátia Bonfim. .
Antes mesmo de quebrados os grilhões pelo Estatuto da Mulher Casada, a já diplomada professora Enedina Costa de Macêdo dispensava qualquer autorização que fosse, para trabalhar pela Educação. Em 1941, assumiu o cargo de professora municipal na fazenda Volta e, em seguida, no distrito de Ceraíma; em 1942, após aprovada em concurso do Instituto Normal da Bahia, em Salvador, assumiu a regência da 3ª Classe do Grupo Escolar Getúlio Vargas, no dia 23 de abril; por duas vezes — abril de 1949 a maio de 1951 e março de 1952 a maio de 1955 — foi diretora deste grupo escolar.
Em 1954, depois de concluir o curso de datilografia, pela Escola Costa Santos, em Caetité, fundou a primeira escola de datilografia de Guanambi, à qual deu o nome de Santa Rita de Cássia, quando, também, integrou a equipe de criação do primeiro ginásio escolar de Guanambi, ampliado para Ginásio e Escola Normal de Guanambi, onde lecionou História Geral e História do Brasil, de 1954 a 1957, ano em que se afastou, para fundar a Escola Primária São Lucas. Em 1959 esta escola foi transformada em ginásio e escola normal, do qual foi proprietária, fundadora e diretora.
Aos 45 anos de idade, nas eleições municipais de 1962, Enedina Costa de Macêdo disputou uma vaga para a Câmara Municipal de Vereadores de Guanambi, pela União Democrática Nacional (UDN), mas não se elegeu, ficando com a terceira suplência. À época, o vereador Lino Teixeira fora eleito pelo mesmo partido, com 480 votos.
Eu tinha nove anos de idade quando a professora Enedina concorreu à Câmara Municipal, mas esta informação somente chegaria ao meu conhecimento muitos anos depois, da mesma forma que outros fatos da vida desta destemida mulher, dada à desatenção com que costumavam ser tratados os feitos locais.
CARINHOSA E AMOROSA
Seus familiares destacam que Dona Enedina sempre foi carinhosa e amorosa com os netos, e que a convivência diária fez com que os vínculos se tornassem ainda mais fortes e profundos, a ponto de eles terem várias recordações dela, principalmente nas fases da infância e da sala de aula, desde a ajuda com tarefas escolares ao orgulho por poderem levar para a escola, nas feiras de conhecimento, suas coleções de águas de rios do Brasil e do mundo, como Tejo, Sena, Tâmisa, Reno; dos mares da Galileia, Morto, Mediterrâneo, Vermelho, e água do Poço de Jacó, além de outros registros históricos de viagens que fez.
Em prestimosa resposta a uma série de perguntas sobre a sua mãe, assim Kátia Bonfim relata:
— Todos os netos têm muito orgulho da história dela, e presenciaram diversas situações em que a “vó Enedina ou vó Nede” era abordada na rua, em eventos, por pessoas que lhe demonstravam o maior o respeito e deferência, sempre exaltando e mencionando seus feitos e papel na educação e na formação de grandes nomes da sociedade em nossa região. Os netos puderam, não somente presenciar, também participar de homenagens que ela recebeu ainda em vida, compartilhando sua admiração. Os encontros com os bisnetos eram sempre repletos de muito amor, e eram a sua maior alegria, pois dado ao fato de morarem em outras cidades, esses momentos juntos eram preciosos e eles guardam as melhores lembranças da Bisa.
Não foi fácil à professora cuidar da família e, ao mesmo tempo, dedicar-se a uma profissão pouco valorizada, numa região do sertão baiano — e por conta disso veio-me a pergunta, feita à sua filha, quanto às dificuldades, se é que ela reclamava, encontradas por Dona Enedina para seguir com sua missão de educadora, levando em conta que, ainda nos tempos atuais, a mulher não recebe o tratamento que lhe é de direito.
A respeito, responde Kátia Bonfim:
— Mãe nunca reclamou sobre nenhuma questão de trabalho, nunca a ouvimos queixar-se ou mesmo mencionar qualquer situação de dificuldade com relação ao trabalho; era muito dedicada e amava o que fazia. Ela lidava com todas as questões relacionadas ao colégio e à educação com muito esmero, dedicação e comprometimento. À época, a profissão de professora ocupava uma outra posição na sociedade, havia mais reconhecimento e maior valorização por parte da sociedade, haja vista ser considerada uma educadora de fato, participante efetiva da formação e educação dos alunos, não apenas atuante pedagógica. E (minha) mãe, por ser, além de professora, diretora de escola, sempre foi muito reconhecida e valorizada por sua competência e comprometimento; era uma voz respeitada na cidade, sempre consultada em diversos assuntos relativos à educação no município. E essa valorização e reconhecimento permanecem até os dias atuais, tanto que sua memória é sempre tratada com deferência, e todos, quando se referem a ela, enfatizam sua trajetória e atuação na educação de Guanambi com respeito, consideração e apreço.
ELEGÂNCIA E CONHECIMENTO
Conheci a professor Enedina no primeiro semestre de 1964, quando prestava exame para minha admissão ao curso ginasial, no Ginásio São Lucas, e “conhecer” é maneira de dizer, pois eu apenas a vi passar por um grupo de estudantes, entre os quais eu me encontrava, ao lado do meu primo Generaldo Teixeira (Ladim). Estes estudantes, já veteranos, debatiam a então chamada de “Revolução de Março”, que acabara de ser perpetrada por militares das Forças Armadas brasileiras na condição de um — agora já sabido — golpe militar.

Confesso que não me lembro da conversa e sequer sabia exatamente o que havia ocorrido naqueles meses de março e abril de 1964, mas ficou na minha memória a curta frase dita com elegância e humor pela então diretora do São Lucas: “Estudem!…”
Anos depois, e não mais residindo em Guanambi, matutei sobre aquela frase e então pude entender a mensagem, posteriormente refletida nas ações da destemida professora. A História deve ser estudada, o que quer dizer, apreendida, não apenas absorvida dos textos impressos nos livros, geralmente escritos pelos vencedores. Segui por este caminho.
Sempre elegante no trajar e no andar, a circular pelos corredores e salas do Ginásio e da Escola Normal São Lucas, Dona Enedina — assim era chamada pelos alunos — desfrutava da consideração de todos. Não era temor, era respeito, admiração diante da deferência que ela dispensava a alunos, professores e funcionários diante de alguma falha, embora fosse severa, especialmente se a quebra do regimento interno.
“Lá vem Dona Enedina!” — ouvia-se, de um ou de outro, a modo de alerta, no caso de algo irregular estar sendo engendrado. Rapazes abotoavam a camisa, ajeitavam o cadarço do sapato ou cabelo; moças cuidavam de acomodarem-se adequadamente nos bancos de cimento na área de lazer, e cada qual em sua ala, pois o pátio estava dividido em duas partes: uma feminina e outra masculina, separadas por um muro. Um funcionário cuidava da fiscalização e, sob situação alguma, havia mistura de homens e mulheres no intervalo das aulas. “Já foi embora!” — aí todos relaxavam-se.
E seguia Dona Enedina. Suas vestes, geralmente uma saia de corte reto, de comprimento na altura dos joelhos, encimada por uma blusa com gola, de mangas curtas, e um casaco do mesmo tecido, demostravam o guarda-roupa de uma mulher moderna. A cor sempre sóbria, fosse azul, rosa ou cinza. Não à toa um modelo popularizado por ícones como a cantora Nara Leão, numa combinação de elementos que criavam uma silhueta feminina e elegante, sem exageros. Assim trajada, circulava pelos corredores do colégio e, com frequência, participava de atividades de sala de aula, ao lado dos alunos, e sempre registradas em fotos. A professora Enedina era amada e respeitada, também temida, talvez pelo alto cargo que exercia. Confesso que, eu mesmo, tremia de medo quando ela olhava para mim: achava que havia feito algo de errado. Mas não, ela me olhava e sorria, como se fazem os avós, os tios mais velhos. Ela sempre agiu assim: olhava para os alunos e sorria, com aquele sorriso fino, amigável e de aprovação.

Quando em maio passado conversei com Kátia Bonfim, a quem eu conhecia do ginásio São Lucas, embora guardássemos uma certa distância, devido à diferença de idade e posição social, ela confirmou aquela impressão minha a respeito de Dona Enedina:
— Mãe separava muito bem as coisas, os seus papeis como professora e diretora, na escola; e em casa, em que era uma mãe normal, fazendo as suas atividades cotidianas, cuidando e educando com muita dedicação. Na verdade, ela nem chegava a mencionar assuntos do colégio em casa, e tínhamos a rotina normal de uma família tradicional, cada uma com as suas atribuições e deveres. Mas, no colégio, claro, eu e minha irmã éramos muito observadas, justamente por sermos as filhas da diretora da escola e, por isso, era esperado de nós que tivéssemos sempre um comportamento exemplar. O nosso comportamento no colégio com os colegas e amigos era típico e comum aos jovens da nossa idade e da época, entretanto, sabíamos que qualquer “deslize” seria levado ao conhecimento de mãe rapidamente, pois éramos as “filhas da diretora”, e não podíamos fazer nada de errado. Qualquer coisa diferente que a gente fizesse, mãe seria a primeira a saber, pois não havia como esconder nada dela no ambiente da escola.
TESTEMUNHA DAS MUDANÇAS
A partir da implantação do voto feminino, em 1932, no Governo Getúlio Vargas, a trajetória da mulher brasileira mostra-se marcada pela transição de um estado de relativa incapacidade civil para a igualdade jurídica e social. Ao longo desta caminhada histórica despontava, na região de Guanambi, a professora Enedina Costa de Macêdo, que acompanhou, de maneira participativa, toda esta histórica revolução. Veja alguns momentos:
1962 — Estatuto da Mulher Casada — Até então a mulher casada era considerada “relativamente incapaz” pelo Código Civil de 1916: precisava de autorização do marido para trabalhar fora, viajar ou receber herança. A Lei nº 4.121/62 devolveu à mulher a plena capacidade civil e o direito de ter bens próprios.
1977 — Lei do Divórcio — A Lei nº 6.515/77 foi um divisor na autonomia feminina e na estrutura familiar brasileira. Antes dela, o casamento era indissolúvel, existia apenas o desquite, que não permitia novo matrimônio.
1988 — Constituição Federal, promulgada em 5 de outubro — Conhecida como Constituição Cidadã, transformou-se no marco mais significativo para a igualdade de gênero ao estabelecer igualdade jurídica: homens e mulheres iguais em direitos e obrigações (Art. 5º, I); direitos trabalhistas: licença-maternidade de 120 dias e proteção do mercado de trabalho contra discriminação; chefia familiar: o poder familiar passou a ser exercido igualmente por ambos os cônjuges.
2006 — Lei Maria da Penha — Criados mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar, estabelecendo medidas protetivas e punições mais rigorosas.
2013 — PEC das Domésticas — A Emenda Constitucional nº 72/2013 garantiu ao trabalhador doméstico, uma categoria composta majoritariamente por mulheres, direitos já assegurados aos demais profissionais pela Constituição de 1988.
2015 — Lei do Feminicídio — O assassinato de mulheres motivado por questões de gênero passou a ser crime hediondo.
CRONOLOGIA DE UMA JORNADA
Em agosto de 2017, por ocasião do falecimento da professora Enedina Costa de Macêdo, o jornalista João Roberto Teixeira fez uma cronologia da sua jornada de educadora, que publicou no site de notícias Agência Sertão.
Transcrevemos, com a devida autorização, o artigo do autor (LEIA aqui):
1917 — Nasce na fazenda Laranjo, no município de Guanambi, filha de Petronilha Petrina Pereira e Alcebíades Pereira da Costa;
1939 — Diploma-se em magistério pela Escola Normal, em Caetité;
1940 — Agente recenseadora no município de Guanambi;
1941 — Nomeada professora municipal, leciona na fazenda Volta, depois no distrito de Ceraíma;
1942 — Aprovada no concurso do Instituto Normal da Bahia, é nomeada e designada, a 31 de março, como regente da 3ª classe do Grupo Escolar Getúlio Vargas, iniciando sua função em 23 de abril;
1947 — Estuda na Escola de Enfermagem Carlos Chagas, em Belo Horizonte (MG), por oito meses;
1949 — Assume a direção do Grupo Escolar Getúlio Vargas, de abril de 1949 a maio de 1951 e de março de 1952 a maio de 1955;
1950 — Casa-se em 27 de janeiro, com Antônio Neves de Macêdo, nascendo dessa união as filhas (gêmeas) Kátia das Graças e Aparecida Kátia;
1952 — Diploma-se em datilografia pela Escola Costa Santos, em Caetité;
1954 — Funda a primeira escola de datilografia em Guanambi;
1954 — Membro integrante da equipe do primeiro ginásio de Guanambi, onde lecionou História Geral e História do Brasil até 1957;
1957 — Funda a escola primária São Lucas;
1959 — Transforma a escola em Ginásio e Escola Normal São Lucas;
1962 — Candidata-se a uma vaga na Câmara de Vereadores de Guanambi, ficando como terceira suplente;
1966 — Participa da Segunda Missão Pedagógica promovida pela Inspetoria de Ensino Secundário em Caetité, na condição de diretora;
1969 — Representa o Colégio São Lucas na missão pedagógica promovida pela inspetoria seccional de ensino secundário, em Bom Jesus da Lapa;
1970 — Aposenta-se com vinte e oito anos de serviço em sala de aula, em 28 de julho;
1971 — Participa do Primeiro Encontro Nacional de Professores Licenciados do Brasil – secção da Bahia;
1975 — Condecorada em Roma pela participação ativa da peregrinação à Europa e Terra Santa, promovida pelo grupo Família Salesiana do Brasil;
1976 — Condecorada pelo BNH Clube de Guanambi – Honra ao mérito, em reconhecimento aos relevantes serviços prestados à comunidade guanambiense no setor de educação;
1992 — Menção honrosa com medalha Laert Ribeiro da Silva, pelos serviços prestados no setor educacional da comunidade;
1994 — Homenageada pela Prefeitura Municipal de Guanambi, fazendo constar seu nome em um dos colégios municipais desta cidade – Colégio Municipal Professora Enedina Costa de Macêdo. Bairro Araújo. L 001;
Diploma de Sócio Correspondente, concedido pela Academia Guanambiense de Letras, pelos trabalhos prestados à cultura brasileira;
2004 — Escreve os livros Do Laranjo à Volta, que narra a história e genealogia da Família Pereira da Costa, aos 85 anos; As 4 Bandeiras, aos 87 anos, relatando suas viagens pelo Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina;
2014 — Escreve o terceiro livro, aos 88 anos, O mundo lá fora, descrevendo as viagens pela Europa e Terra Santa, a realização de um sonho de infância. 2017 — Falece a 27 de agosto, dois meses antes de completar 100 anos, em São Paulo, onde passava parte do ano, já que se dividia entre a capital paulistana e Guanambi, junto às duas filhas, que residiam, respectivamente, nessas cidades.
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